menu
3 de mar de 2018

Porque ser chamado de "viado" foi o pior xingamento

Quem me conhece há algum tempo sabe que nunca gostei de xingar, nem que xinguem enquanto conversa comigo, sempre senti que uns palavrões mal colocados pesariam a conversa, mas hoje consigo ver que alguns possam ser usados para deixar as conversas mais suaves, mas depende de quem o diz e como o diz.

Acredito que esse ranço por xingamento se concedeu há muito tempo, ainda quando era criança: fui xingado (e muito) quando nem sabia o que era xingamento e muito menos entendia o porque as pessoas faziam aquilo (ainda não entendo, rs). Mas como elas já fizeram, não há porque criar remorsos aqui, vamos tocando o barco e seguindo a maré. Não me lembro se aquilo realmente me afetava na época, mas lembro que dizia para minha mãe que meus colegas homens da escola ou da rua me chamavam de viado, ela dizia para eu mostrar a pinto e falar "olha aqui o viado". E eu mal sabia o que era viado, dessa forma, amizades masculinas nunca foram bem-vindas pra mim, porque mesmo não sabendo o que significava ser viado, entendia aquilo como algo ruim e negativo.

Compreendi o que era ser viado, gay, baitola ou bichona só quando estava nos anos finais do ensino fundamental e apenas após entrar na faculdade me assumi gay. Foram mais de 10 anos não compreendendo algo e não permitindo. E hoje, consigo perceber a demora da aceitação se rendeu de várias coisas, inclusive de: ter sido chamado de viado e sempre ter encarado isso como algo negativo.

Como eu poderia ser algo que ninguém gosta? Como poderia ser gay? Quando me assumi, algumas pessoas já disseram que não era nenhuma novidade porque sempre apresentei traços femininos (enquanto para mim era um mundo a descobrir). Era gay muito tempo antes de saber, quero dizer, lá no fundo algo dentro de mim sabia que gostava de outra coisa, mas nunca permitiu, porque as pessoas não permitiram. Porque eu era viado. E viados vão pro inferno.


Ser gay vai contra tudo o que aprendemos, seja na escola ou em casa, é um confronto enorme com a própria cultura que tivemos durante muito tempo até saber o que gostamos de fato. Ser xingado negativamente afetou na própria compreensão que tinha sobre os meus gostos e modos de agir. E tentamos falar que isso não deveria ligar ou se importar, mas o problema é que a gente se importa sim, a gente liga sim. Porque existem momentos em que somos pegos desprevenidos e são nessas fragilidades que acabamos permitindo que opiniões alheias faça com que nos escondemos, faz com que nos sentimos para baixo. 

Hoje eu mesmo me chamo de viado; vejo pessoas me chamarem de viado também, inclusive pessoas que não são do meu vínculo de amigos e penso: "será que está difícil perceber isso? será que não estou transparecendo corretamente que as pessoas tendem a me lembrar?". Sinto um pouco de mérito em falar que passei por essa limitação na minha vida, mas vejo muitas outras pessoas sofrendo porque outras pessoas não tem senso, nem vergonha, só língua afiada. 

A propósito, sou viado. E, bem, acho que não vou pro inferno. 

(E tenho orgulho disso). 



Singularidades é um mais um projeto criado juntamente com a Karol com o propósito de contar mais coisas pessoais em nossos blogs, se você sentir vontade em participar, fique a vontade, nós entendemos que algumas coisas precisam ser externadas ─ você pode ver mais postagens do projeto clicando aqui.

3 comentários:

  1. Oi Iguu, como vai?
    Aaaaaa fazia tempo que eu não me identificava tanto com um texto quanto me identifiquei com esse. No meu caso algumas coisas foram diferentes: quando me chamaram de viadinho pela primeira vez eu percebi que só chegaram a esta conclusão por conta dos compartamentos femininos que eu apresentava. Então o que eu fiz? Eu os escondi, tranquei-os em um lugar tão escondido de mim que demorou para eu encontra-los novamente. Mas eu encontrei, e hoje tenho muito orgulho em dizer que sou viado, bicha, frutinha, baitola, gay.

    Parabéns pela superação viado, eu e nossa comunidade estamos aqui pro que você precisar 💛

    www.mundoinvertido.com

    ResponderExcluir
  2. Amando participar de mais um projeto contigo ❤
    Até hoje não entendo como as pessoas tem facilidade em falar determinadas coisas para a outra, como eu disse lá no texto, não fazem caso por isso. E, o pior de tudo, é que algumas dessas coisas acabam moldando nem que seja um pouco de nós.

    O melhor de tudo é quando vamos nos desprendendo dessas coisas e não deixamos ser tão dominados assim por elas <3

    Amei a frase, e obrigada por apresentar aquela lá do post.

    Beijos, xuxu.

    ResponderExcluir
  3. Oi, Igor. Mais um projeto pra eu me apaixonar e querer participar, é isso mesmo??? AMEY.
    Sobre seu texto, eu fico muito feliz que, hoje, você possa ser quem é e não ter vergonha disso <3 Lembro daquele texto no qual você assumiu sua sexualidade aqui e eu ainda o amo muito <3
    Só discordo sobre a ignorância das pessoas de acharem que, pra ser gay, precisa ter traços femininos - isso não é e nunca foi indício nenhum, aliás, esse tipo de pensamento só expõe uma problemática muito grande de gênero.

    Love, Nina.
    www.ninaeuma.blogspot.com

    ResponderExcluir

Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial