São preces


Como poderia ser amor? logo eu que sou dissipação, agonia e insegurança. como poderia ser intenso se não há outrem que não a rotina que havia e se acostuma nos dias dados pelo destino. orientada e regida pelas estrelas sem muitos mistifórios a tangente, que não é mais, segue na continua linha de sempre fazer o mesmo e se cansar disso, mas fazer o mesmo novamente. todos os dias.

não haverá amor enquanto não souber o que quer amar, quando se amar, se auto amar. e se perdoar quando não compreender e aceitar que há não compreensão a todo custo. limitação existiu para quebrar, mas não no momento exato, as vezes recuar é o ensinamento. que ensinamento.

porque machuca, não entender os limites e desmitificar o próprio coração, porque às vezes é pedra e às vezes mole demais. inconsistente. existe uma ferida, que nunca cicatriza e a gente cutuca. e sangra mostrando que está vivo. que a gente está vivo, porque ora pulsa ligeiro, ora palpita.

então brincamos com o passado e com as quantidades de "e se", alimentamos as injustiças e justificativas. aceitamos porque o passado é passado. mas o que tem atormentado é justamente o desconhecido, apelidado, temporalmente, de futuro. porque são muitas vontades e muitos outros medos que inibem as vontades.

de um lado uma pressão de fazer o que quer, dormir de baixo da árvore durante a tarde e pintar um quadro do pôr do sol. do outro a necessidade de ter um apartamento no centro da cidade perceber que cresceu, houve ascensão, saiu do mato e foi para a cidade, comprou carro e agora pegar trânsito — quando queria andar de bicicleta.

é complexo, esse negócio chamado vida. porque quando a gente não tá bem, nada ao nosso redor parece ficar bem também. mas das coisas mais fáceis do momento não irei fazer, que é desistir.

— ilustração por Letícia Reis