Os dias de saudade


haveria de reclamar sobre as noites que se tornaram distintas porque são as noites que desejei que tivesse por trás, como a minha mãe me abraçava quando era criança, também chamado de conchinha, houve saudade porque essa mesma posição sempre me trouxe conforto, cuidado e carinho. haveria saudade porque dona patrícia nem sempre gosta das minhas roupas porque não condiz com o trabalho ardoroso, ela sabe, eu sei, nos sabemos que haverá saudade disso algum dia. e nesses mesmos dias em que dona patrícia reclama das roupas encontro lucas, que se intensificou nos meus dias e nas manhãs e nas noites, que virou receio de estar e de sumir a qualquer momento, que tem o mesmo nome do meu irmão mais novo, que me dá saudade por ter 7 anos de idade e apesar de tão criança, é muito adulto. gosto dessa semelhança de nomes, são saudades distintas, mas amores imensos. e nós mesmos dias que vejo lucas e mato saudade, outras haverão de se intensificar como quando estou dentro do ônibus e há sono de manhã e depois do trabalho, no caminho a mistura de cochilo, leituras e pequenos sustos com medo de ter passado a parada, porque nesses dias que não passamos da parada, pegamos o ônibus errado, banhamos de sol e encontramos um novo caminho entre os prédios que polpam tempo e ao mesmo tempo permite pensar na vida logo de manhã.

e nessas mesmas manhãs a gente descobre que será promovido, porque merece e essa é a grande notícia do dia e talvez da semana, talvez do mês. e a partir de então começa a pensar em crescer e sair de casa, para sentir saudade dos pais, das contas pagas e cama arrumada, para provar o pedaço que é ser adulto, ter responsabilidades, pagar iptu, mas chamar de nosso. meu. minha. sentir orgulho e deixar os outros orgulhosos.

esses dias são de saudade, eternizam de uma ou de outra forma, as vezes a gente esquece. e é normal, porque saudade é assim, está lá e nem parece.

 — ilustração por listrinhas