6 de jul de 2018

Distrações



São raras as vezes que Olívia tira os olhos do livro quando está no metrô. Chega a ser um pouco metódico, porque ela senta sempre no mesmo lugar, no mesmo vagão do metrô do lado contrário ao sol. Nem sempre foi assim, porque nos dois primeiros dias descobriu qual era o lado que o sol não batia.

As viagens da Olívia até a faculdade são sempre iguais, letras miúdas numa folha meio amarelada, acompanhada de música clássica nos ouvidos. Numa dessas raridades de desviar os olhos das páginas acaba sendo avistado um menino de cabelos e olhos muito pretos, lendo um outro livro — algo que já é de praxe no metrô: pessoas lendo livros, porque não há rede móvel.

Apesar da deformação numa parte do rosto do menino, Olívia se sentiu atraída de alguma forma, talvez pela idade próxima, da estatura elegante, do modo como ele mexia a boca quando parecia estar concentrado. Talvez esse fosse o meninos dos sonhos de Olívia, não extremamente bonito, mas atraente.

Apesar de estar no mesmo lugar todos os dias, criou a coragem de se levantar e sentar ao lado do rapaz — quase como interpretando as personagens femininas e corajosas dos livros que costumara ler —, na verdade não é muito difícil, apenas precisa captar os 10 primeiros segundos da atenção sem tremer a voz ou gaguejar.

Nós 10 primeiros segundos ela pensou, não teria assunto, e o menino, agora ao seu lado, não se moveu ou percebeu que ela trocou de lugar. Nesses 10 eternos segundos ela se lembrou que havia lido aquele livro muito antes de fazer faculdade, afinal era uma leitura obrigatória para prestação do vestibular. Então ela perguntou: "leitura obrigatória para o vestibular?", muito criativa.

O menino de meio rosto feio respondeu com um sorriso acompanhado de um não, que ele estava lendo só por diversão, adorará livros com pegadas mais clássicas e com críticos social. A conversa se estendeu falando sobre todos os problemas brasileiros, depois mundiais, mudando para as perspectivas que cada um dia sobre a vida. E apesar de estar no lado do sol, porque o menino não sabia escolher lugares, ela se sentiu feliz. Uma viagem diferente da acostumada. Mas logo a conversa findaria, porque chegaram a Central, estação final do metrô e se espalhariam na pequena Brasília em busca dos seus objetivos diários.

Ela descobriu que o rosto havia sido chamuscado quando ele ainda era criança e agora parecia até ser charmoso, prova de uma infância aventureira. E nossa, como ela queria viver aventuras dos livros que lera (sem consequências graves, é claro). O assunto cessou por um tempo, então ela imaginou como seria sair para tomar um café no meio da cidade, após a aula de geografia avançada, onde estaria exausta e poderia relaxar tomando um bom café e uma conversa tão boa quanto está.

O silêncio perdurou até os últimos minutos minutos, chegando a última estação, Pedro, que sim tinha um nome, pediu o número do telefone e combinaram de algum dia tomar um café e ler as poesias que ambos escreviam.

Esse dia nunca aconteceu, nem um segundo encontro no metrô. Mas Olívia sabia que valerá a pena não terminar o capítulo daquele romance naquele dia, porque descobriu que distrações também pode ser positivas.