4 de jul de 2018

Blusinha de lã

 Ela bem que se lembra nesses minutos antes que ele adorava o cabelo longo até a cintura, talvez essa fosse a última parte que restou nela que se referisse a ele.

O término não foi fácil, porque nunca é. Ela que sempre acreditou em princípes descobriu sentindo na pele pela segunda vez que raramente acontece, que as pessoas mentem e que soube que seu coração seria pedaçado novamente.

Ninguém se prepara para esses momentos, ainda mais quando você é trocado por outra pessoa. São tantas perguntas que ela queria fazer, mas a mistura de raiva e dor, não permitiam ser feitas, sempre foi aberta a tudo, menos traição.

As duas primeiras semana foi inconsolável, não sentiu vontade de sair da cama, eram quatro anos de relacionamento jogados na lata de lixo. E pensando nisso, decidiu ouvindo Adele, que seria momento de se livrar de algumas coisas e colocar na mesma lata de lixo os resquícios daqueles anos dourados, coisas que ela não tivera coragem porque doía lembrar dos momentos bons e não tê-los no futuro que sempre sonhara.

Talvez fosse melhor mudar a música para essa atitude que teria que fazer a seguir. Mas não, ela retirou cada fotografia pregada na parede que formava um grande coração e chorou. Ali sozinha ela percebia que era o fim, então continuou indo para escrivaninha e o longo espelho que ficava ali próximo, retirando mais fotografias e recados de amor escritos em post-its. A sorte era que a lata de lixo era grande e coube todas as pequenas coisas, aquilo decretou o fim (ou pelo menos o início do fim).

Quatro anos de relacionamento gerou muitos presentes e muito desses estavam estocados dentro de gavetas e cabides no guarda-roupa. Aquela, de longe, seria uma noite que terminaria cedo: abrir a primeira gaveta trouxe a blusa de lã que ela ganhou de presente na primeira viagem dos dois, comprada num brechó em Curitiba que ela seguia a séculos no Instagram. O cheiro dele permanecia na blusa, apesar de muito tempo não usada. E então ela abraçou, sentiu saudade e sentiu que precisava de uma sacola maior para doar todas aquelas coisas.

Tinha coisas que durante o namoro ela se recusava jogar fora, porque eram presentes, mas agora ela via a oportunidade perfeita para abrir espaço no guarda-roupa e para as novas coisas que poderiam chegar. Lá se foram caixas enfeitadas, capinhas de celular, a aliança, os pequeninos colares, a maquiagem que ela nunca conseguiu usar porque era alérgica.

Se sentiu aliviada ao ver dois sacos grandes no canto do quarto, aquele poderia ser o fim do fim. Mas não era, no esforço de levar as coisas para o carro e deixar no hospital mais próximo, ela desceu as escadas e parou no hall — um rosto inchado, desconhecido. Aquela aparência não combinava mais com a nova que se tornou.

Na manhã daquele dia, ela bem que se lembra nos minutos antes de cortar o grande cabelo que ele adorava até a cintura. Agora com um corte sofisticado, estava pronta para uma nova fase, apesar de todas as coisas materiais que nos livramos, também precisamos permitir que as coisas em nós também possam mudar.

Chegando em casa, se lembrou que esqueceu de retirar o saco de lixo, então o fez. E depois foi dormir, estaria exausta, porém revigorada.