Oi, você deve ter perpebido que o layout mudou. Nos próximos dias algumas alterações aconteceram por aqui, desculpe o transtorno.

Espaço em branco

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ainda que decorasse todas as palavras, não seria o suficiente para o nervoso e o súbito espaço “em branco” que toma conta do momento, ainda que decorasse todas as palavras, essas não estariam aqui, de prontidão, para agradecer o hoje, o sentimento, não mais alheio, que se expande, de dentro, pra fora, na mesma medida que, de fora, pra dentro.

Uma pessoa amada

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és, sem sombra de dúvidas, de todas as mulheres existentes, a mais linda. és a rainha, a minha parte mais boa, sincera e culta. és todas as frases clichês decoradas de livros da adolescência, és filosofia de mãe, és quem diz "filhos são para voar". mãe, tu és amor seguro, abraço confortante, ainda que lágrima e briga em algumas poucas vezes em todos esse anos; tu és adoção e doação, amizade e sorriso, puxão de orelha e liberdade.

como eu amo amar quem tu és; como qualquer outra mãe, que em outrora, não pude escolher, chegaste e me amaste nos detalhes mais minuciosos, nos pequenos erros de criança; mãe, tu és meu molde de bondade no mundo, a ânsia por coisas novas, por experiências. és o meu mais belo espelho, porque só tu és vontade, loucura, travessura e na mesma intensidade és ingenuidade, cuidado e amor. amor esse que perdurou por dias, meses e anos afinco até os dias de hoje, que já não sou mais criança que fica dentro dos seus braços ou na defesa de uma conchinha. ainda que tu insistas que filho nunca cresça, que nunca será tarde demais para receber carinho ou uma conchinha desajeitada como só tu sabes fazer.

como eu amo amar quem tu és, porque és, sem sombra de dúvidas, o meu lado mais bom no mundo.

Para todos os lugares

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nunca agradeci de fato a todos os lugares, nos minutos corridos entre 12h e 13h, às vezes atrasos. nos almoços baratos por falta de falta de opção, mas acompanhados dos lugares mais bonitos escondidos no meio do concreto. em dias de chuva e em dias de sol, às vezes no banco de frente, às vezes no banco de trás. a desculpa de fazer fotos, nunca foi verídica, eu já sabia e você também. apesar dos registros acontecerem, não era por isso: eu queria estar lá e você também, nos minutos corridos entre 12h e 13h. minutos esses que permitiram conhecer lugares afastados de casa e lugares bem próximos, que nunca ganharam visibilidade para alguém do interior ou até mesmo para alguém da grande cidade grande. para todos os lugares fica um pouco da minha presença e talvez um “talvez volte aqui em outro dia”, a você meus eternos agradecimentos.

Um momento de coragem

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Respira. Conta até três. Levanta da cama. Senta. Conta até cinco. Levanta. Mais cinco. Sete. Senta. Oito. Dez. Respira. Abre a porta. Na metade do caminho, volta. Fecha a porta, encosta as costas, conta até dez novamente. É agora ou nunca. Agora. Abre a porta, contando três cinco sete oito dez. Respirando tão trêmulo quanto as mãos. É agora. Nunca foi fácil me abrir com meu pai, aliás, nunca pensei que seria tão fácil. "Pai quero conversar a respeito de uma coisa com você". Sentamos nas cadeiras de balanço que ficam na varanda da casa. Sentar nessas cadeiras quer dizer que os assuntos são sérios, alheios de qualquer outra distração. Como falar. Como dizer. Conta até dez. Um. Dois. Três. "O que você  quer me falar?". Quatro... "Eu acho que... gosto de meninos, eu sou gay". Pausa. Respira. Olho nos olhos. "Eu já sabia". Risos. Nervosos. Risos. Abraços. Lágrimas internas. Compreensão. Pausa. Amor. Amizade. Carinho. Desconhecido. Peso que cai dos ombros. Permissão. Para novos caminhos, para uma nova vida, para a saída.

— estou participando do projeto 30 dias de escrita.

Um lugar querido

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Depois que sai da casa dos meus pais, há algumas semanas, percebi que o meu lugar favorito é a  casa deles. Aqui não cabe vez para aquele ditado de que "lar é onde você está", pois a casa dos pais, para mim, sempre será o lugar que poderei recorrer quando tiver medo e fazer algumas cagadas na vida. Sair de casa foi algo incrível que me permitiu ver o quanto eu amo aquele lugar, as manchas nas paredes de pés e mãos, as tomadas que não funcionam, o rachadinho na parede do lado da minha cama e a porta que não fecha se você não souber o macete.

De fato, é o meu lugar preferido, porque é onde eu cresci e por mais que eu tenha me mudado, as coisas ainda continuam nos mesmos lugares, os livros ainda estão na mesma ordem, a sapateira do lado do guarda-roupas, tudo intacto. É sem dúvidas meu refúgio, é quando eu sinto uma saudade dentro e uma vontade de dizer "estou de volta", ainda que uma parte queira também fazer um novo lugar querido.

Hoje, esse lugar favorito, que é casa dos meus pais, foi um lugar que demorei muito a aceitar, porque pela quantidade de pessoas ela nunca conseguiu se manter 100% organizada e os móveis nem 100% intactos. Não é a casa mais bonita, não é feita de mármore e não chama muita atenção; mas é uma casa incrível, que me acolheu durante vários dias e que aprendi a amar aos poucos e ver que aquilo, o material, o físico, também fazia parte de mim 

(e ainda faz, sempre fará).


— estou participando do projeto 30 dias de escrita.

Uma memória feliz

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São tantas as memórias felizes que seria egoísmo citar apenas uma, seria muito estranho também falar apenas de uma memória quando sempre que penso em escrever sobre algo que me fez bem um tempo atrás várias coisas me surgem, quando as risadas do meu irmão mais novo ou as primeiras palavras da Tainá ou quando me fantasiei de zumbi no último ano do ensino médio e uma pessoa me parou na rua por achar que eu havia brigado.

É claro que eu poderia adicionar todas as histórias de amor vívidas até aqui, todos os sabores e novas experiências que fui presenteado nos últimos anos, lembro de quando apresentei meu primeiro namorado para os meus pais, foi uma reação esquisitamente boa, mas senti o quanto a minha família seria incrível em abraçar um desconhecido, abraçar os meus amores e fazê-los pertencer.

Das infinidades de lembranças, que se tornam borrões, sons e cheiros, algumas ainda podem ser descritas:como quando vi minha mãe chorando na plateia enquanto estava lá em cima recebendo o canudo de formação, quando recebo o abraço saudoso de quem não vejo faz tempo, quando todas as vezes que dormi com meus amigos (de conchinha ou não), quando pintei meu cabelo, quando furei pela primeira vez a orelha e também quando fiz minha primeira viagem sozinha (por mais que não tenha sido para mais de 300km da minha casa).

A gente vai percebendo que os momentos felizes não requer muito recurso, acontece sem querer, acontece dentro da rotina, não é nada fatídico, nada esperado. Ainda que acompanhado dos dias tristes, os felizes permitem dar o valor e permanência nisso chamamos de viver.

— estou participando do projeto 30 dias de escrita.

Ser adulto e ficar doente

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Não me acostumei ainda com a nova vida, ainda sinto falta dos gritos do Lucas, do meu pai brigando com ele. Porém as coisas tem se ajeitado aos poucos, dá pra sentir a nova rotina se consolidando, os desafios de cozinhar só pra si todos os dias.

Ficar adulto exige que a gente faça o papel de adulto. Como se cuidar, comprar remédios para quando a gente ficar doente, requer um cuidado que eu só recebia passivamente e agora necessito, ativamente, me cuidar, me amar e principalmente me conhecer, conhecer os limites e as necessidades que se prolongam no cotidiano menos corrido.

Como de costume, minha garganta sempre inflama por qualquer motivo besta. E mesmo tendo ido a casa dos meus pais, sinto que preciso resolver isso só. Na verdade, sempre gostei de resolver as coisas sozinho, nem sempre fácil, porque é uma delícia ter as coisas feitas pra você, no caso, remédio em horários certos, sopa quentinha, medição de febre a cada 1h.

Eu amo meus pais e os mimos.

Mas ser adulto exige que eu tenha o cuidado de perceber o quão sou frágil e o quanto preciso fazer para que momentos como esse não ocorram (ou ocorram em momentos menos dolorosos). ir ao hospital sozinho me trás uma independência que não havia antes, onde eu posso resolver os meus problemas sem a orientação dos meus pais.

E sei que vou errar muitas vezes. e só assim que a gente aprende a ser de fato gente grande. talvez essa apenas uma das milhares situações que precisarei resolver sozinho.


— ilustração por listrinhas

Algumas mágoas

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as mágoas sempre ocorrem nos dias de cansaço, de trabalho intenso e falta de tempo.

talvez, justamente pela falta de tempo ou por as coisas se afastarem do planejado. porque acontece sem previsão, algumas coisas saem do controle e empetecam a vida como um todo, num embaraço completo, profissional ou não.

nesses dias de mágoas bate uma reflexão, um momento de empoderação e questionamentos de "o que estou fazendo com a minha vida?".

a gente quer sumir.
para sentir falta
não que os outros sintam,
mas porque queremos
(e precisamos)
entender algumas coisas automáticas que, por conforto, permitimos encabeçar a vida.
até nos mínimos detalhes.

e às vezes as mágoas vem e nem percebemos porque entramos na rotina diária de sempre estar sorrindo, porque entramos nas redes sociais e é isso que vemos. chega até ser uma provação a si mesmo de estar bem, para então parecer que realmente está bem, sendo que, talvez, nesse momento precisássemos ser uma explosão, mesmo que pequena, mesmo que grande. para haver transformação, revolução e rupturas (musculares ou não).

os dias de mágoas vem disfarçados nos dias alegres e vão se acumulando durante um período até que eclode, aprendi isso ainda muito novo: por mais que a gente "não ligue" lá no fundo a gente liga sim. e isso acumula.

mas faz bem.
só não pode ser tornar um colecionador.

 — ilustração por Letícia Reis  

 
///////// @igormedeiroz