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Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe

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Uma questão pessoal
Kenzaburo Oe
Companhia das Letras, 2003
224 páginas
Em 1964, o romancista japonês Kenzaburo Oe recebia a notícia de que seu primeiro filho nascera com uma anomalia cerebral. É a mesma situação enfrentada pelo protagonista de Uma questão pessoal, o professor Bird. Aos 27 anos, ele leva uma vida mediana, bebendo pelos bares de Tóquio e sonhando com aventuras no distante continente africano. A gravidez da mulher acrescenta angústia ao cotidiano de Bird. A ideia de que será pai e chefe de família faz com que se sinta condenado à vida cotidiana. Para piorar, depois do parto, os pais descobrem que uma anomalia cerebral fará o menino ter uma vida vegetativa. Bird não suporta a possibilidade de se ver atrelado para sempre a um filho anormal. Passa, então, a desejar a morte da criança. Aos poucos, porém, Bird se dá conta de que a crise era uma oportunidade para percorrer um caminho de conquista da realidade, enfrentando os desafios de amadurecimento da vida adulta.

Ouso dizer que esse livro é baseado na vida do próprio autor, não sei se todos os acontecimentos também acontecem na vida real. Oe teve bastante coragem de expor suas dúvidas em relação a ter um filho "anormal", em como, no primeiro momento, fosse abandonar o filho e a família.

Bird, o personagem central, está com o dilema de que nunca conseguirá realizar sua viagem dos sonhos para a África, afinal sua esposa está prestes a parir. Apenas quando o bebê nasce com aparentemente uma anomalia cerebral, ele percebe que esse sonho deve ser mesmo deixado de lado, a não ser que ele encontre algum jeito de contornar essa situação.

Acho interessante Oe ter utilizado o nome do personagem como Bird, que, na tradução, significa pássaro, com alguma metáfora à liberdade, em que precisa carregar esse fardo de decidir a vida ou morte do filho. De fato, o livro leva jus ao nome: uma questão (extremamente) pessoal; então acompanhamos esse personagem durante os dias seguintes, visitando a amante, que nos apresenta como amiga, em busca de consolo e respostas do que deveria fazer.

Enquanto isso, acho fascinante Oe escrever este livro sobre o egocentrismo e egoísmo, revelando pensamentos que possivelmente teve durante os primeiros dias com seu bebê, as incertezas, medos e frustrações — que fazem-nos detestar o personagem principal, mas também refletir sobre o que faríamos se estivéssemos naquela situação.

Caderno Proibido, Alba de Céspedes

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Caderno Proibido
Alba de Céspedes
Joana Angélica d'Avila Melo
Companhia das Letras, 2022
288 páginas
Valeria Cossati queria apenas buscar cigarros para o marido na tabacaria, mas acaba comprando ilegalmente um caderno preto -- um item que não poderia ser comercializado aos domingos --, e faz dele seu diário. Estamos na Roma dos anos 1950, e Valeria leva a vida entediante de uma mulher de classe média, dividindo-se entre os papéis de mãe, esposa e funcionária de escritório. Há anos ela não ouve o próprio nome -- o marido só a chama de "mamãe" --, e sua relação com os filhos é marcada por conflitos geracionais. Porém, conforme alimenta aquelas páginas proibidas, Valeria começa a notar uma profunda transformação em si mesma -- cujas consequências ela ainda não sabe prever. Alba de Céspedes foi uma das grandes autoras de língua italiana do século XX, com uma obra que se destaca pela profundidade das personagens femininas. Em Caderno Proibido, a autora demonstra todo seu talento ao retratar a intimidade de uma mulher comum e as mudanças da sociedade italiana no pós-guerra.

Caderno Proibido é um livro em que nada acontece. Conta a história dessa mulher que um dia decide comprar, em um dia que não se poderia comprar, um caderno e começa a escrever sobre os seus dias. Tal como uma adolescente com seu diário, decide escondê-lo da família. E é quando Valeria se depara com o fato de que, dentro da própria casa, não tem um lugar para esconder. Buscando esconder entre gavetas esquecidas, potes vazios ou na lavanderia, Valeria começa a escrever sobre seus dias, olhando atentamente para tudo o que está a sua volta: as crianças que cresceram, o casamento que está meio merda, "...mas talvez tudo o que, de uns tempos para cá, eu creia ver ao redor não seja verdade. Talvez seja culpa deste caderno.", e a lista não para, também começa a se questionar sobre a relação com as amigas, com o chefe do trabalho - em quanto tempo deixou passar para que percebesse nos detalhes.
Naqueles vestidos, e no modo volátil de falar em voz alta, estridente, reconheço a intenção de provar umas às outras que são felizes, ricas, sortudas, e que suas vidas foram muito bem-sucedidas. Talvez não acreditem de fato nisso, é como quando, no colégio, mostrávamos umas às outras os brinquedos recebidos de presente e cada uma dizia: “O meu é mais bonito”. Parece-me justamente que, nelas, essa puerilidade cruel permaneceu.

O caderno então passa a ser esse personagem inanimado que desencadeia sentimentos conflituosos de liberdade e dor. A própria Valeria diz, por várias vezes no livro, que talvez fosse uma boa ideia destruir aquele caderno. Escrever permitia que ela não fosse engolida por uma rotina e, agora, como renúncia, chegasse a novos lugares. O caderno, a escrita, a fazia presente e viva naquela vida depois de tantos vivendo aquela vida, "Além disso, se eu tirasse o caderno daqui, me pareceria não encontrar mais nada de meu em casa, quando volto.".
Antes eu sempre ficava amargurada quando os meninos saíam e agora, ao contrário, desejo que o façam para poder ficar sozinha e escrever.
Não é um livro curto para um livro em que não acontece nada, mas é delicioso e inspirador acompanhar Valeria se transformando internamente: como uma mulher longe de todos os rótulos que lhe deram, de mãe para os filhos, de mamãe para o marido, de secretária para o chefe... Não só isso, mas como ela começa a se perceber no mundo, como esse ser que também tem desejo, vontades, pensamentos.
Compreenderá, tenho certeza, já que todas as mulheres escondem um caderno negro, um diário proibido. E todas devem destruí-lo. Agora me pergunto onde é que fui mais sincera: se nestas páginas ou em minhas ações, aquelas que deixarão de mim uma imagem, como um belo retrato. [...] Esta será a última página: nas seguintes não escreverei, e meus dias futuros serão, tal como as páginas que se seguem a esta, brancos, lisos, frios.
Como bom defensor de diários e blogs, esse livro não poderia ser menos que um favorito e uma bela surpresa. A escrita é esse lugar de calmaria e de perceber que a vida realmente está passando; as fotografias mostram que o tempo passa, mas apenas a escrita faz a gente vivenciar, sentir e sentir novamente o que vivemos. É cura. É liberdade. É renúncia. A escrita, hoje, é esse ato de rebeldia de ainda ter uma voz.
Nunca poderia acreditar que tudo o que me acontece ao longo do dia merecesse ser anotado. Minha vida sempre me pareceu meio insignificante, sem acontecimentos notáveis além do casamento e do nascimento das crianças. Mas desde que, por acaso, comecei a manter um diário, percebo que uma palavra, um tom, podem ser tão importantes, ou até mais, quanto os fatos que estamos habituados a considerar como tais. Aprender a compreender as coisas mínimas que acontecem todos os dias talvez seja aprender a compreender realmente o significado mais recôndito da vida.

Memórias do Subsolo, Fiódor Dostoiévski

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Memórias do Subsolo
Fiódor Dostoiévski
Boris Schnaiderman
Editoa 34
152 páginas
Obra-prima da literatura mundial, esta pequena novela traz, em embrião, vários temas da fase madura de Dostoiévski. Seu protagonista, um funcionário que vive no subsolo de um edifício em São Petersburgo, expõe a sua visão de mundo num discurso explosivo, labiríntico, vertido impecavelmente para o português por Boris Schnaiderman.

Memórias do Subsolo é esse livro um pouco difícil de entender no começo. O homem do subsolo é esse personagem meio caricato que se achar melhor que os outros porque se acha um intelectual e porque tem um cargo militar que lhe deveria dar certa credibilidade. Mas, na verdade, o homem do subsolo é esse homem triste e solitário que usa desculpa de ser um homem pobre/doente e que precisa inferiozar outras pessoas para esconder suas próprias frustações e medos que o paralizam a correr atrás dos seus sonhos.

A primeira parte do livro é como se fosse no futuro, onde acompanha o homem, sem nome mesmo, tendo um grande monólogo do que ele acha certo ou o que acha errado, sobre onde deve existir sentimento quando se pode ser racional, quando 2 + 2 são igual a quatro.
Será que o homem não ama algo além do bem-estar? Talvez ele também goste de sofrer. Talvez o sofrimento lhe seja um lucro tão vasto quanto o seu bem-estar? Por vezes, o homem é extraordinária e ardentemente apaixonado pelo sofrimento, e isso é um fato.

A segunda parte é essa que explora algumas das experiências do personagem com outras pessoas, da humilhação que ele sofre e também que ele reproduz, um homem machucado que não sabou se curar e acaba projetando as próprias frutações em outras pessoas – até mesmo na única pessoa que parece realmente o ter amado (pobre Lisa).
Teria eu sido construído apenas para chegar à conclusão de que toda a minha construção é uma fraude?

Este é o meu primeiro livro do Dostoevsky e tenho vontade de ler depois de aventurar por mais algumas obras russas, é um livro que acredito que numa segunda ou terceira leitura é ainda mais fácil de capitar/entender o que o personagem está sentindo. Penso em reler esse livro intercalando a primeira e segunda parte, porque acredito que vá misturar essas experiências do passado do homem do subsolo com as suas reflexões vindas dessas experiências.
Observem-se com mais atenção, senhores, e então compreenderão que é assim mesmo. Inventei aventuras para mim e construí uma vida para ao menos vivê-la de algum modo.

Tenho vontade de fazer uma releitura deste livro de outras formas: começando pela segunda parte e depois a primeira ou intercalando os capítulos da primeira e segunda parte. Acredito que a mistura entre narrativa de acontecimentos na vida do personagem com os pensamentos filósificos fazem ter uma outra experiência.

Para complementar a leitura:
Memórias do Subsolo: Um espelho do nosso pior lado

A Vegetariana, Han Kang

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A Vegetariana
Han Kang
Editora Todavia
176 páginas
Eu tive um sonho”, diz Yeong-hye, e desse sonho de sangue e escuros bosques nasce uma recusa radical: deixar de comer, cozinhar e servir carne. É o primeiro estágio de um desapego em três atos, um caminho muito particular de transcendência destrutiva que parece infectar todos à sua volta. A VEGETARIANA tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Uma história sobre rebelião, tabu, violência e erotismo escrita com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas. A tradução, diretamente do coreano, restitui o estranhamento do original.

A história é divida em três atos, cada um com a perspectiva de um personagem: o primeiro é sob o ponto de vista do marido em relação a decisão de Yeong-hye em parar de comer carne e reação da sua família; o segundo foca no cunhado que desenvolve um desejo e persevidade pelo corpo da cunhada; e o terceiro é o desdobrando dos dois primeiros atos, sob o ponto de vista da irmã, In-hye. Nos três atos observamos o expectativas do comportamento de Yeong-hye, as frustações e o ego de dos personagens.
Fiquei sem palavras. Eu já tinha ouvido falar que estava na moda ser vegetariano. Com o objetivo de ter uma vida mais longa, de mudar o metabolismo e se livrar das alergias. Os monges budistas em retiro também são vegetarianos, mas eles têm um propósito maior, o de não causar danos a seres vivos. Mas de onde vinha aquela postura extravagante da minha mulher? Ela não era mais adolescente, não precisava perder peso nem tinha que se curar de alguma doença, e mesmo assim tinha resolvido mudar de hábitos alimentares depois de um pesadelo. Nem estava possuída por um demônio! Como podia ser tão teimosa e ignorar completamente a opinião de seu marido?

Sob essas diferentes perspectivas e ideais de outros personagens sobre a protagonista, conseguimos perceber a "transição" de Yeong-hye para um animal encurralado, depois para um monge em complitude e depois a busca para se assemelhar a uma árvore/planta e enfim transcender de toda essa dor e expectativas dos outros em seus ombros.
Dava a impressão de se contentar com observar tudo o que lhe acontecia, como uma espectadora, apenas. Não: quem sabe em seu interior coisas terríveis e inimagináveis estivessem acontecendo, e gerenciar tudo aquilo, mais as questões cotidianas, fosse desgastante demais para ela. Talvez por isso não tivesse energia suficiente para demonstrar interesse ou para reagir às coisas ao seu redor.

Se prepare para uma leitura violenta contra o feminino, o desejo e a independência. É sobre uma cultura que se solidifica em misoginia, patriarcado e hierarquia; no silenciamento das mulheres. É um livro que faz questionar para em que lugar estamos indo como sociedade.
Depois de rir por alguns minutos, pensava que a vida era estranha. As pessoas comiam, bebiam, tomavam banho e seguiam vivendo mesmo depois de passar por acontecimentos terríveis.

A escolha do título A Vegetariana é bastante curiosa, porque em nenhum momento Yeong-hye se opõe dizendo que é vegetariana, só que deixará de comer carne, essa subjetividade vem a partir de outras pessoas do seu ciclo familiar; uma alusão ao próprios desejos e vontades negados da protagonista, a qual ninguém parece ser interesse em ouvi-la ou entende-la sem desvecilhar das próprias visões de mundo e serem empáticas com o outro.

É por causa da carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui. Tenho certeza. Sangue e carne foram digeridos e se espalham por todos os cantos do meu corpo; os resíduos foram colocados para fora, mas as vidas insistem em obstruir o plexo solar.

Para mim, o livro segue para duas vertentes: a de que Yeong-hye desistiu da vida e por isso deixa de comer carne, que em muitas culturas representa a vida, a abundância e eventualmente deixa de comer qualquer coisa. E no outro lado é que, talvez ela tenha se liberdado de todas as amarras que a prendia, decidindo agora o que fazer com a sua vida independente das consequências ou achismos das outras pessoas.
O máximo que ia conseguir era machucar a si mesma. Seu corpo é a única coisa à qual você pode fazer mal. É a única coisa com a qual você pode fazer o que quiser. Mas nem isso te deixam fazer.

Terra Partida, Clare Leslie Hall

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Terra Partida
Clare Leslie Hall
Intrínseca
330
Beth é uma mulher simples que vive uma rotina pacata no interior de Dorset com o marido, Frank. Seus dias se resumem a arrumar a casa e ajudar Frank e o cunhado, Jimmy, a cuidar da fazenda onde moram. Os três formam uma família feliz e unida, até que um incidente inesperado muda o curso de suas vidas: Jimmy atira em um cachorro que invade a fazenda, e o animal pertence a ninguém menos que Gabriel Wolfe, o homem que Beth amava na adolescência — e que partiu seu coração.
Gabriel retornou à cidade com seu filho Leo, um garoto que faz Beth se lembrar do próprio filho, Bobby, que morreu alguns anos antes. Em pouco tempo, mesmo sabendo que isso pode acabar prejudicando seu casamento, ela acaba se aproximando do menino, e, consequentemente, de seu ex. E à medida que é atraída de volta para a vida de Gabriel, as tensões aumentam e o ciúme se manifesta.
Beth e Frank têm um casamento feliz, mas os dois guardam segredos, e seu relacionamento depende de o passado permanecer enterrado. No entanto, quando a verdade começa a vir à tona, tudo sai do controle, e dessa vez as consequências são mortais. Então, Beth é forçada a fazer uma escolha: continuar sendo a mulher que se tornou ou se transformar na mulher que um dia desejou ser.

Terra Partida é um daqueles livros com reviravoltas entre o passado e o presente. Sabemos que algo terrível aconteceu no passado de Beth, Frankie e Gabriel e o livro se desenrola para tentar desvendar o que realmente aconteceu com estes personagens.

O livro contém uma escrita viciante, não é possível largar, porque os capítulos apesar de não serem curtos sempre terminam com um próximo gancho. Li algumas outras resenhas e o pessoal resume o livro em: uma grande novelona da globo, cheio de coisas mal resolvidas, amores do passado e desencontros.

É uma leitura de sessão da tarde.

Sem Tempo a Perder, Ursula K. Le Guin

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Sem Tempo a Perder
Reflexões sobre o que realmente importa
Ursula K. Le Guin
Editora Aleph
272 páginas
Por anos, a escritora Ursula K. Le Guin conquistou gerações de leitores com seus mundos imaginários. Durante a última parte de sua vida, a velhice, ela explorou um novo território: ensaios para o público geral, publicados em seu blog. Esses textos estão reunidos aqui e representam a junção perfeita da escrita envolvente e evocativa de suas narrativas ficcionais com temas universais como envelhecimento, família e... amor, seja por seus amigos, seja por seus animais de estimação....

Sem tempo a perder é uma coletânea de ensaios do blog de Ursula, iniciado em 2010, quando a autora tinha 81 anos, os temas reunidos no livro são sobre velhice, os gatos da autora e sua relação com a escrita e com os seus leitores. Em outros textos Ursula fala um pouco sobre política, sobre o capitalismo.

Vivemos no capitalismo. Parece ser impossível escapar ao seu poder. Assim também parecia o poder divino dos reis. Todo o poder humano pode ser resistido e desafiado por seres humanos. Resistência e mudança começam frequentemente na arte, e frequentemente na nossa arte — a arte da palavra.

O que mais ficou comigo durante a leitura é como uma pessoa pode escrever tão bem, desenvolver tantos assuntos sobre si e dizer tanto sobre o mundo em postagens para um blog. Me fez ver sentindo em ter um espaço para escrever sobre qualquer coisa, talvez sobre meus maus causos no tinder, talvez reclamar sobre outra. Me fez ver sentindo em escrever como posicionamento à vida, para me lembrar dos dias.
Gosto muito dos textos sobre a velhice e morte, por serem temas que recorrentemente penso: a velhice é inerente a condição humana. Terminei o livro com vontade de começar de novo, de explorar o blog da autora, de ler a vida sobre os olhos dela.

Há anos ensaiando em me aventurar na fantasia de Um Feiticeiro de Terramar e agora não vejo a hora de embarcar mais uma vez nas palavras dessa autora.

Cafés & Lendas, Travis Baldree

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Cafés e Lendas
Cafés e Lendas #1
Travis Baldree
Editora Intrínseca
337 páginas
Viv empunha sua poderosa espada pela última vez. A história de uma orc deveria se resumir a força e violência, mas ela está farta de travar batalhas e colecionar problemas. Por isso, decide colocar um ponto-final em suas aventuras sanguinárias e recomeçar a vida. Levando uma pedra que carrega uma lenda esquecida, a orc decide ir para Thune, uma cidade que reúne criaturas de várias espécies e onde talvez exista uma misteriosa energia mágica. Lá, Viv decide abrir um estabelecimento nunca antes visto: uma cafeteria. Mas começar um negócio é difícil — especialmente quando ninguém tem ideia do que é café. E, para piorar, há inimigos do complicado passado da orc que querem atrapalhar seus planos. Em meio ao aroma de café e às novas amizades — Cal, um hob de poucas palavras, Tico, um adorável ratoide padeiro, e Tandri, uma súcubo que mexe com seus sentimentos —, Viv finalmente sente que encontrou seu lugar. Mas ela vai precisar de ajuda para trilhar esse novo caminho…

Uma orc, Viv, que decide largar a vida de matança para abrir um cafézinho numa cidade pacata e, apesar do receio, acaba encontrando pessoas muito dispostas a fazerem aquilo funcionar.

Esse livro já estava um tempinho na minha mira, é um livro levinho, fofo. Uma fantasia que me lembra muito Assistente de Vilão, com essa pegada de seres mágicos que fazem trabalhos normais.

Acho que a coisa mais fofa e bonita do livro é a forma como eles começam a formar uma família, cada personagem à sua maneira vão dando um jeito para fazer com o que o café funcione. Uma leitura tranquilinha, sem muitas reviravoltas: apenas algumas reverberações do passado sangreto de Viv. O livro em si acompanha Viv e abertura e o dia a dia no café, criação de cardápio, contratação de funcionários e os primeiros clientes.

Sinto uma falta de um aprofudamento dos personagens ou de uma premissa mais elaborada, mas essa não é a proposta do livro, na verdade é um livro justamente para relaxar, não ter que pensar muito. É aquela leiturinha que chamamos de cozy. É uma série, então talvez nos próximos livros tenhamos mais aprofundamento nessa questão do passado dos personagens.

Gostei, quero ler o próximo livro em breve. Ótimo para quem está com ressaca literária.

Três, Valerie Perrin

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Três
Valerie Perrin
Intrínseca
528 páginas
Adrien, Étienne e Nina se conhecem na escola aos dez anos, em 1986, e rapidamente se tornam inseparáveis. Eles passam o dia juntos nadando na piscina, trocando confidências e prometendo que um dia sairão do interior da França e se mudarão para Paris, onde viverão de música. Os três não podiam ser mais diferentes: Étienne é o rebelde, Adrien, o ingênuo, e Nina, a emotiva. No entanto, a união entre eles é maior do que qualquer diferença. Um não se vê sem o outro. Mas, às vezes, nem mesmo o laço mais forte é capaz de resistir aos percalços da vida. Enquanto a infância vai ficando para trás, a forte conexão entre os três também começa a ceder aos obstáculos que surgem ao longo do caminho. Trinta anos depois de se conhecerem, Adrien, Étienne e Nina se tornaram estranhos uns para os outros. A amizade que eles juraram que seria eterna não existe mais. Porém, um acontecimento inesperado pode trazer à tona segredos enterrados há muito tempo.

Havia algum tempo que eu ouvia falar no nome da Valerie Perrin; adicionei Três à minha meta de leitura assim que foi lançado. Fiquei feliz quando o livro foi escolhido no clube de leitura, porque assim pude conversar com outras pessoas sobre a leitura.

Tenho tido experiências muito boas com autores franceses: Ernaux, Édouard Louis e, agora, mais uma autora para eu ficar obsessivo, querendo ler toda a bibliografia. Acho que todos esses autores me arrebatam porque escrevem sobre relações e sobre pessoas de uma forma tácita, em que os personagens vão se construindo aos poucos por meio do tempo, de outras histórias (músicas, livros, filmes etc) e das experiências.
Eu adorava as olheiras sob os olhos de Nina. Tinha inveja delas. Aquilo a envelhecia, a fazia parecer mais madura. Eu queria roubar suas marcas de cansaço. Queria roubar tudo dela.

Três conta a história de três amigos e de como a vida, por mais planejada que seja, nunca segue o caminho que sonhamos. É uma história de perdas: da inocência, do luto, da infância, ao ter que crescer mais rápido e das lembranças boas que se materializam e se perdem no tempo; mas é também uma história de amizade, amor, carinho e relações.

Ao aprofundar os personagens, acho que Valerie mostra muito essa questão humana que leva as pessoas a se relacionarem ou deixarem de se relacionar. Até mesmo os personagens mais secundários ganham um pequeno espaço para explicar o próprio background e o que os levou a chegar ali, qual é o seu papel na história.
É louco pensar que podemos amar alguém, seu cheiro, seu corpo, sua saliva, sua voz e, de repente, detestar tudo isso.

Sem dúvida, o principal ponto é desvendar a relação desses três melhores amigos de infância que, quando adultos, deixaram de se falar. Apesar de ser um livro com foco em amizade, também explora outros tipos de relacionamentos, como os amorosos. Gosto de olhar por esse ponto porque quase todos os relacionamentos desse gênero são descritos como obsessivos; isso molda muito a trajetória da história, mas também me faz pensar por que a autora colocou o amor romântico nesse lugar mais obsessivo, enquanto a amizade, para mim, parecia algo mais natural.

Terminei a leitura com a sensação de sermos moldados pelas nossas relações, que são resquícios de outras relações, que também são resquícios de outras gerações: uma série de traumas, dores, medos e preconceitos que reverberam na vida das pessoas durante anos. Penso em como também somos as relações que nossos pais tiveram com os nossos avós, mas também como os amigos se relacionaram com outros amigos; somos reflexos de muitas outras experiências e, claro, da nossa própria experiência com essas pessoas.
Nós nos tornamos aquilo que os outros fazem de nós e aquilo que aceitamos.

Acho que uma das coisas de que eu mais gostei neste livro — algo que o torna mais longo — é que a autora escreve com muitos detalhes, para transmitir sensações e lembranças, criando, de fato, personagens e histórias reais. É uma maneira que, quando escrevo, também procuro seguir. Um bom exemplo disso é o trecho que a Aline destacou e eu “roubei”:
O verão pertence a todas as lembranças. É atemporal. O seu cheiro é o mais forte. É aquele que fica nas roupas, aquele que buscamos a vida inteira. O de frutas muito doces, de brisa do mar, de rosquinha, de café, de protetor solar, do pó de arroz das avós. O verão pertence a todas as idades. Não tem infância nem adolescência. O verão é um anjo.
É um livro grande, denso, mas que estou muito feliz de ter lido. É lindo, poético. É sobre a vida.

A Rainha das Sombras, Sarah J. Mass

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A Rainha das Sombras
Trono de Vidro, #4
Sarah J. Mass
Galera Record
644 páginas
A assassina está morta. Ela abraçou a identidade de Aelin Galathynius, rainha de Terrasen. Mas antes de reclamar o trono, precisa lutar. E ela vai lutar. Por seu primo, o general do Norte... um guerreiro preparado para morrer por sua soberana; por seu amigo Dorian, um príncipe preso em uma inimaginável prisão; por seu povo, escravizado por um rei cruel e à espera do retorno triunfante de sua líder; por seu carranam e a libertação da magia. Ao avançar em seu plano, no entanto, Aelin precisa tomar cuidado com velhos inimigos. E abrir o coração para novos e improváveis aliados. Tudo isso enquanto os valg continuam trabalhando nas sombras. E Manon Bico Negro, a Líder Alada das Treze, treina suas bestas voadoras. Mas é de Morath, a fortaleza montanhosa do Duque de Perrington, que uma ameaça como nenhuma outra promete destroçar seu grupo de rebeldes e sua corte recém-formada.

Depois de quase 650 páginas consegui terminar o quarto livro da série, a cada novo livro a história vai ficando melhor e o nível de fofoca também vai aumentando. Comecei a gostar de alguns personagens que antes não me chamavam tanta atenção, simplesmente brilhante a forma como Sarah J. Mass descreve seus personagens.

Apesar de um começo lento, assim como quase todos os livros da Sarah, esse teve algumas viradas muito mirabolantes que me deixam de boca aberta, me vi gritando e passando algumas madrugadas lendo. Quero muito saber onde essa história vai levar. Gosto muito dessa história porque não tem tanto de romance, mas é focado em aventura e matança.

O Estrangeiro, Albert Camus

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Capa do livro Príncipe Partido
O Estrangeiro
Albert Camus
Editora Record
96 páginas
O livro é uma reflexão sobre a liberdade e a condição humana que deixou marcas profundas no pensamento ocidental. Não à toa foi eleito pelo jornal Le Monde como um dos livros mais importantes do século XX.Essa edição, revisada pelo escritor, jornalista e crítico literário especializado na obra de Camus Manuel da Costa Pinto, conta ainda com um valioso texto de Jean-Paul Sartre em que explica O estrangeiro e seus paralelos justamente com O mito de Sísifo, trazendo uma nova compreensão para essa obra que merece ser lida e relida, sempre com novos olhos.

O Estrangeiro é uma leitura chata, mas é interessante. Camus explora um personagem que não é capaz de sentir nada, se é capaz de sentir, ele não o expressa. Para ele a vida é apenas um caminho, não há diferença entre fazer o bem e o mal, um personagem totalmente alheio a vida e aos outros, realmente um estrageiro em corpo humano.

Não havia como esse livro não ser curto, são 90 e poucas páginas desse personagem vivendo a vida e não esboçando nenhuma reação das barbaridades, nem mesmo quando ele é acusado de matar alguém (o que de fato acontece) e as razões ou motivações poderiam absolver ele da pena de morte (ou não).

Esse livro me trouxe algumas lembranças de quando eu costumava fazer as coisas sem pensar muito, sem permitir ser atingido, amado, sofrer, sorrir, me sentir feliz. Foram (e ainda é) alguns muitos anos de terapia para tentar perceber como o mundo me atravessa e como também posso atravessar o mundo e não me sentir assim, deslocado ou sem propósito.

Divinos Rivais, Rebecca Ross

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Capa do livro Príncipe Partido
Divinos Rivais
Livro 01
Rebecca Ross
Editora Alt
409 páginas
Após séculos adormecidos, os deuses estão em guerra novamente. No entanto, a única preocupação de Iris Winnow, uma jovem jornalista de dezoito anos, é manter sua família unida e em segurança. Enquanto a mãe de Iris sofre para superar um vício e o irmão está desaparecido em meio às trincheiras da guerra, a melhor forma de a garota atingir seu objetivo é conquistando a vaga de colunista no jornal onde trabalha, a Gazeta de Oath. Enquanto isso, para lidar com suas preocupações, Iris escreve cartas para o irmão. Porém, misteriosamente, elas vão parar nas mãos de Roman Kitt, seu insensível e fascinante rival na redação do jornal. Quando ele passa a responder anonimamente as cartas, os dois criam uma conexão mágica que seguirá Iris até a linha de frente da batalha, em uma busca por seu irmão, pela salvação da humanidade e pelo amor.

O que poderia ser mais legal de ler do que um livro sobre guerras entre deuses? Como fã de mitologia tinha que ler esse livro que ficou famosinho durante o ano passado. O que mais me surpreendeu é que apesar de um livro passado na guerra, quase não se fala sobre ela, para mim não ficou muito claro o que estava acontecendo e só depois percebi que talvez essa fosse a mesma sensação dos personagens: que não sabiam porque estavam lutando em uma guerra de deuses.

O livro é divido em capítulos curtos, em terceira pessoa acompanhamos a vida de dois personagens e as trocas de cartas entre eles, como lidam com decisõs difíceis, luto e principalmente com um possível amor correspondente. É fofo de acompanhar a história deles, os perigos e as mudanças que uma guerra pode trazer. O final é arrebatador, dizem que a continuação não é muito boa, mas só me resta uma opção: ler.

"Lessons in Chemistry", de Bonnie Garmus

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Capa do livro
Lessons in Chemistry
Bonnie Garmus
Editora Penguin
400 páginas
In the 1950s, Elizabeth Zott's dream of being a scientist is challenged by a society that says women belong in the domestic sphere; she accepts a job on a TV cooking show and sets out to teach a nation of housewives way more than recipes.

Eu nunca pensei que leria esse livro, porque tenho esse problema em ler livros que foram muito hypados - e mais uma vez me arrependo de não ter lido antes, não foi uma leitura planejada e só li porque comprei o livro em um sebo.

Foi uma supresa agradável e risquei várias páginas do livro, ainda que não esperasse, achei que era romance, mas apesar de ter romance não é um livro sobre romance, mas sim sobre ser mulher e sobre acreditar em si. Acho que Elizabeth, a personagem principal, me trouxe essa sensão de autencidade, da pessoa que sabe para o que veio, com propósito e decisões claras.

A vida acontece e são tantas variáveis e sortes e boas ações de outras pessoas que moldam nossos caminhos.

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