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Caderno Proibido, Alba de Céspedes

Capa do livro
Caderno Proibido
Alba de Céspedes
Joana Angélica d'Avila Melo
Companhia das Letras, 2022
288 páginas
Valeria Cossati queria apenas buscar cigarros para o marido na tabacaria, mas acaba comprando ilegalmente um caderno preto -- um item que não poderia ser comercializado aos domingos --, e faz dele seu diário. Estamos na Roma dos anos 1950, e Valeria leva a vida entediante de uma mulher de classe média, dividindo-se entre os papéis de mãe, esposa e funcionária de escritório. Há anos ela não ouve o próprio nome -- o marido só a chama de "mamãe" --, e sua relação com os filhos é marcada por conflitos geracionais. Porém, conforme alimenta aquelas páginas proibidas, Valeria começa a notar uma profunda transformação em si mesma -- cujas consequências ela ainda não sabe prever. Alba de Céspedes foi uma das grandes autoras de língua italiana do século XX, com uma obra que se destaca pela profundidade das personagens femininas. Em Caderno Proibido, a autora demonstra todo seu talento ao retratar a intimidade de uma mulher comum e as mudanças da sociedade italiana no pós-guerra.

Caderno Proibido é um livro em que nada acontece. Conta a história dessa mulher que um dia decide comprar, em um dia que não se poderia comprar, um caderno e começa a escrever sobre os seus dias. Tal como uma adolescente com seu diário, decide escondê-lo da família. E é quando Valeria se depara com o fato de que, dentro da própria casa, não tem um lugar para esconder. Buscando esconder entre gavetas esquecidas, potes vazios ou na lavanderia, Valeria começa a escrever sobre seus dias, olhando atentamente para tudo o que está a sua volta: as crianças que cresceram, o casamento que está meio merda, "...mas talvez tudo o que, de uns tempos para cá, eu creia ver ao redor não seja verdade. Talvez seja culpa deste caderno.", e a lista não para, também começa a se questionar sobre a relação com as amigas, com o chefe do trabalho - em quanto tempo deixou passar para que percebesse nos detalhes.
Naqueles vestidos, e no modo volátil de falar em voz alta, estridente, reconheço a intenção de provar umas às outras que são felizes, ricas, sortudas, e que suas vidas foram muito bem-sucedidas. Talvez não acreditem de fato nisso, é como quando, no colégio, mostrávamos umas às outras os brinquedos recebidos de presente e cada uma dizia: “O meu é mais bonito”. Parece-me justamente que, nelas, essa puerilidade cruel permaneceu.

O caderno então passa a ser esse personagem inanimado que desencadeia sentimentos conflituosos de liberdade e dor. A própria Valeria diz, por várias vezes no livro, que talvez fosse uma boa ideia destruir aquele caderno. Escrever permitia que ela não fosse engolida por uma rotina e, agora, como renúncia, chegasse a novos lugares. O caderno, a escrita, a fazia presente e viva naquela vida depois de tantos vivendo aquela vida, "Além disso, se eu tirasse o caderno daqui, me pareceria não encontrar mais nada de meu em casa, quando volto.".
Antes eu sempre ficava amargurada quando os meninos saíam e agora, ao contrário, desejo que o façam para poder ficar sozinha e escrever.
Não é um livro curto para um livro em que não acontece nada, mas é delicioso e inspirador acompanhar Valeria se transformando internamente: como uma mulher longe de todos os rótulos que lhe deram, de mãe para os filhos, de mamãe para o marido, de secretária para o chefe... Não só isso, mas como ela começa a se perceber no mundo, como esse ser que também tem desejo, vontades, pensamentos.
Compreenderá, tenho certeza, já que todas as mulheres escondem um caderno negro, um diário proibido. E todas devem destruí-lo. Agora me pergunto onde é que fui mais sincera: se nestas páginas ou em minhas ações, aquelas que deixarão de mim uma imagem, como um belo retrato. [...] Esta será a última página: nas seguintes não escreverei, e meus dias futuros serão, tal como as páginas que se seguem a esta, brancos, lisos, frios.
Como bom defensor de diários e blogs, esse livro não poderia ser menos que um favorito e uma bela surpresa. A escrita é esse lugar de calmaria e de perceber que a vida realmente está passando; as fotografias mostram que o tempo passa, mas apenas a escrita faz a gente vivenciar, sentir e sentir novamente o que vivemos. É cura. É liberdade. É renúncia. A escrita, hoje, é esse ato de rebeldia de ainda ter uma voz.
Nunca poderia acreditar que tudo o que me acontece ao longo do dia merecesse ser anotado. Minha vida sempre me pareceu meio insignificante, sem acontecimentos notáveis além do casamento e do nascimento das crianças. Mas desde que, por acaso, comecei a manter um diário, percebo que uma palavra, um tom, podem ser tão importantes, ou até mais, quanto os fatos que estamos habituados a considerar como tais. Aprender a compreender as coisas mínimas que acontecem todos os dias talvez seja aprender a compreender realmente o significado mais recôndito da vida.

1 Comentário

  1. um dos motivos pelos quais eu amo que as pessoas falem sobre o que amam é que a gente tem vontade de amar também — o que é um jeito bonito de dizer que você me deu vontade de ler esse livro, hahaha. as suas descrições e os excertos me lembraram um pouco d'a redoma de vidro, da sylvia plath (que eu nunca terminei de ler, inclusive preciso). vou anotar o nome dele aqui!

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