Criador de conteúdo
Viver de arte e internet, ao mesmo tempo, está impossível. Vamos ser engolidos tentando produzir como máquinas e, para ser como máquinas, vamos acabar substituindo tudo por IA.
Arquivos digitais
No começo do BEDA alguns blogues ficaram indiponíveis porque a plataforma Blogger tirou-os do ar por alguns dias e ficou claro que: difícilmente temos controle sobre os nossos arquivos digitais quando hospedados por uma bich tech (ou small tech), o fato é que podem, se quiseren, excluir centanas de textos, palavras e memórias em questão de minutos.
Por sorte, os blogs voltaram ao ar e está tudo certo. Mas isso leva ao questionamento, do quanto temos controle sobre os nossos arquivos digitais em nuvens. Os e-mails, conversas e privacidade.
Se deixarmos de pagar a nuvem um mês, o que acontece, toda a nossa vida é apagada? Chegamos a esse ponto em que as pessoas comeraçam a perceber que estamos pagando vários serviços para "salvar" essas mídias e que um dia elas podem apenas sumir e pronto, o que é muito estranho, porque deixamos de certo modo ter direito ao acesso dos nossos próprios dados e informações.
Acho que o cenário é pior ainda quando começamos a pagar por vários streamings (para ler, ouvir, assistir, etc) e que: estas plataformas podem reeditar o filme ou série e descontextualizar o propósito do filme. Se um filme foi feito com um proposito X e está disponível apenas na Netflix, se a Netflix quiser mudar o contexto para Y, ela poderá fazer isso? Outra coisa que fico pensando é que eles conseguem também controlar o que a gente assiste, e claro, há interesses econômicos e políticos nisso.
Chegamos nessa era digital em que há muito "conteúdo", mas o conteúdo bom mesmo e de qualidade está ficando inacessível, seja pela quantidade e inflação de influencer querendo dar pitaco sobre tudo, ou então na necessidade de "assinar a newsletter" ou paywalls para conseguir ler estes ensaios ou matérias.
Encontrei há algum tempo um manifesto sobre a distribuição e acesso a informação e que me deixou bem reflexivo:
Informação é poder. No entanto, como todos os poderes, há quem o queira manter só para si. Toda a herança científica e cultural do mundo, publicada ao longo de séculos em livros e jornais, está a ser progressivamente digitalizada e armazenada por um punhado de empresas privadas. Queres ler artigos científicos com os resultados mais famosos descobertos pela ciência? Vais ter de pagar quantias enormes aos editores, como a Reed Elsevier.
Mas há quem lute por mudar esta situação. O Movimento pelo Acesso Livre luta arduamente para motivar os cientistas para que não prescindam dos seus direitos de autor por essa via e, em vez disso, publiquem o seu trabalho na Internet, sob termos que permitam o acesso a qualquer um. Mas mesmo no melhor dos cenários esse trabalho será apenas aplicável ao que for publicado no futuro. Tudo até agora estará perdido.
Esse é um preço demasiado alto a pagar. Forçar académicos a pagar para ler os trabalhos dos seus colegas? Digitalizar bibliotecas inteiras mas só permitir ao pessoal da Google a sua leitura? Providenciar artigos científicos para todas as universidades de elite do Primeiro Mundo, e nada para as crianças do Sul Global? É um escândalo e é inaceitável.
“Eu concordo”, muitos dizem, “mas o que podemos fazer? As companhias têm os direitos de autor, fazem enormes quantias de dinheiro ao cobrar o acesso, mas é tudo legal — não há nada que possamos fazer para os parar.” Mas a verdade é que há algo que podemos fazer, e que já tem sido feito: podemos contra-atacar.
Aqueles que acedem a estes recursos — estudantes, bibliotecários, cientistas — têm um privilégio. Alimentam-se do banquete de conhecimento enquanto o resto do mundo está fechado lá fora. Mas não precisam — de facto, moralmente, não podem — manter esse privilégio só para si. Têm, por isso, o dever de o partilhar com o mundo.
Estas acções passam-se na penumbra, no submundo marginal. São chamadas de roubo ou pirataria, como se a partilha da riqueza de conhecimento fosse equivalente à pilhagem de um navio ou ao assassinato da sua tripulação. Mas a partilha não é imoral — é um imperativo moral.
Não há justiça em seguir leis injustas. É tempo de sair da sombra e, na grande tradição da desobediência civil, declarar a nossa oposição a este roubo privado da cultura pública.
Nós temos que lutar pela Guerrilha do Acesso Livre.
Julho de 2008, Eremo, Itália
os dias de cão acabaram (na verdade, estão só começando)
Uma ode à experiência.
Um simulacro de performance.
Happiness hit her, like a train on a track.
1. Mantive o mesmo título original, que é uma referência a música da Florence + The Machine, apenas com adicação da segunda parte entre parênteses. ↩
2. How to Plan the best Vacation for your Happiness (2021) e Como as redes sociais afetam a sua visão de si mesmo (2019). ↩
3. Postei uma selfie e agora há um monte de estranhos curtindo a minha foto. ↩
A linguagem dos jovens
Teorias de domingos à noite com M.
Após duas taças de um champanhe ótimo (Casal Garcia Fruitzy sabor melão), começou a tocar algumas músicas do que seria um R&B contemporâneo e outras coisas em que uma das cantoras era Chxrry. Que, na minha cabeça, era pronunciada da seguinte forma: cherry, como a cereja; M. me solta que nunca ia fazer essa associação tão rápida, porque, atualmente, os nomes e a linguagem dos jovens parecem tão distantes do que ele estava acostumado. E mudam.
Percebo em alguns memes que o meu irmão mais novo me manda que metade das coisas, talvez por eu estar maioritariamente fora das redes sociais, eu tenho de pesquisar as palavras ou os significados. Acho que a linguagem dos jovens, lembro no meu tempo, era esse lugar de novidades, que criamos trejeitos, dialetos e novos jeitos de se comunicar, isso que causa uma certa independência para com o passado dos nossos pais e tornam as palavras nossas, de fato, nossas.
A linguagem muda, como a forma de se expressar e comunicar também muda, e isso é muito genial como o ser humano criar esses artifícios tão bobos para se diferenciar: os jovens utilizarem apenas letras minúsculas ignorando as regras gramaticais e convencionais, como algo aesthetic. Já estive desse lado e hoje não consigo escrever tudo minúsculo, acho que talvez a minha fase de rebeldia e disrupção tenha passado. Envelheci.
E deixe as crianças encontrarem novas maneiras de se comunicarem entre si, agora precisamos de encontrar maneiras de conversar com eles, um problema que eu tinha quando era adolescente e que meus pais pareciam não entender. Não tinham a mesma linguagem que eu tinha com os meus amigos.
Uma vez li que quem usa ‘emoji’ já é velho e percebi que, eu e meus amigos, começamos a usar emojis com mais frequência, talvez pela preguiça de escrever ou de procurar um sticker (as melhores formas de se expressar). Talvez de fato seja essa coisa de não termos tanta paciência de escrever e reduzir a um emoji, o "ODKASODKAP" dando lugar apenas a um😃. Fico a imaginar o quanto de coisas que se perdem entre uma frase toda escrita em minúscula e um emoji, mas faz parte. Humanos nunca conseguiram se comunicar 100%.
Um limite para chamar de seu: estar sempre presente é não estar presente? (ou com o a internet está estragando nossas relações humanas)
Na época da escola, em que eu não tinha celular e usava de vez em quando o celular do meu avô para mandar SMS para meus amigos. Apertar três vezes para digitar a letra C, uma série de botoes para formar apenas uma frase. As mensagens eram limitadas por dia, limitadas no tamanho. No outro dia eu lembro bem dos professores reclamando para fazer silêncio, porque eu não conseguia calar a matraca. Sempre havia assunto e, principalmente, vontade. Quando foi que eu comecei a estar cansado destas trocas?
O excesso de contato virtual substituí a presença física? Não, acredito que não; somos seres sociáveis, precisamos de interação com outros humanos, mas o que resta quando você troca mensagens, fotos e mil coisas todos os dias várias horas por dia? O que resta para o físico? Será que meu cérebro é capaz de desassociar físico e digital? Às vezes estou de saco cheio, mas não é pela pessoa, mas pela exposição diária à tantos temas diferentes ~amigos, grupo do hiking, grupo de leitura, família, assuntos difíceis e então assuntos engraçados. Uma mudança extrema de humor muito rápida que não sei se os pobre neorônios conseguem processar, um vídeo de violência e um video fofinho de cachorro. Não sei quais são os danos para minha cabeça (/pesquisar).
Mas sei que não tenho vontade alguma de ir para um café jogar conversa fora. Sinto exaustão, nem é por não gostar dos meus amigos. A minha bateria social está viciada e preciso recarrega-la com muito mais frequência do que costumava (/que comparação infeliz de se fazer em tempos de IA). Depois nem as mensagens eu quero responder, porque não consigo perceber a urgência de algumas e odeio ter os números de notificações ~ o que me faz ler todas as mensagens e não necessariamente responde-las. Fico imaginando o quanto de energia mental que eu gasto para ter tantas conversas diferentes em apenas um dia.
Acho que, afinal de contas, sinto falta de quando os SMS eram limitados e sobravam assuntos para depois.
Ainda somos humanos?
Já tinha prometido a mim mesmo que não usaria o Grindr, mas hora ou outra me vem essa vontade e quatro ou cinco "conversas" são suficientes para querer desinstalar o aplicativo. "Conversas" em aspas porque nem ouso chamar isso de um diálogo decente.
A vontade de deletar é por causa de exemplos como o da foto abaixo que acontecem numa quantidade absurda, em que parece que perdemos o interesse pelo o que o outro é, mas no que ele pode nos oferecer, de tamanho, proporção, idade. Objetificando, mas não esperava nada diferente de um usuário que é uma barriga em que a descrição é "Masculino/Discreto"*, por aí já são várias red flags.
Queria saber onde foi que perdemos o contato, a possibilidade de fazer perguntas realmente genuínas ou de ter levemente interesse no outro. Eu sei que é um aplicativo de sexo, mas me assusta a ideia de queremos transar sem conhecer o outro, essa distância que criamos ao apego ou a intimidade que me deixa mais solitário e claramente deixa muitas coisas pessoas solitárias também.
Não é o Grindr, Tinder, Instagram ou qualquer outra aplicação que deixa a gente com esquisitice com o outro. É nós mesmos que fazemos essas escolhas.
*Numa das conversas com L, ele disse que muita gente da nossa comunidade parece performar essa masculinidade como prova de alguma virilidade ou poder, que o feminino é algo inferior e que começamos a ter atitudes misóginas sem perceber. Isso me explodiu a cabeça.
A cabeça cheia
Esses dias tive que ir ao Porto resolver algumas burocracias, fiz uma viagem de bate-volta. 8 horas dentro de um ônibus. Quatro para ir, quatro para voltar. Apesar de ter levado o Kindle e conseguido terminar de ler A Vegetariana, ainda me sobraram boas horas livres, baixei o Instagram e passei boas e boas horas arrastando o dedo pelas telas, esse foi o dia de maior tempo de tela nos três últimos meses. Isso foi numa quinta-feira.
Na sexta-feira (ontem), estava destruído, não só fisicamente, mas principalmente mentalmente. A cabeça cheia, um peso, não conseguia me concentrar em nada e só tinha vontade de continuar com o celular. Em que, como eu estava tão cansado, precisava de estímulo para me manter "acordado". O estímulo do celular, do scroll e das redes sociais é tão... gostoso. E fácil.
Conseguia sentir o retrogosto na boca depois de passar várias horas com os olhos vidrados na tela, uma sensação de perda de tempo, de ressaca mesmo, um cansaço sem explicação. A dopamina barata que vem em larga escala, que não resta opção se não continuar ali consumindo.
É uma armadilha.
Acho que realmente não me resta opção, não é um lugar em que consigo de forma saudável permanecer. Não adianta colocar limite de tela, bloqueador de aplicativo ou algo do gênero. É um lugar nocivo a nossa criatividade, paz e saúde.
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| Disse a diva depois de descobrirem que ela escrevia as matérias para a Folha de São Paulo com IA. |
- Duplicação do mundo, explorando o como estamos substituindo a realidade por um mundo digital.
- Tempo de qualidade, leio todas as publicações, me faz pensar muito.
- Teoria da internet morta, uma teoria que, infelizmente, não parece mais conspiração.
- Ninguém tem culpa se você é burro
10 passos para diminuir o tempo de tela
- Remova todas as aplicações de "redes sociais" do celular e acesse apenas pelo computador.
- No computador, utilize extensões para bloquear propagandas desnecessárias e recomendações. Quebre a lógica do algoritmo e receba apenas postagens de pessoas que você segue. Indico Untrap para Youtube e o Antigram para o Instagram.
- Trate seu celular como um telefone fixo. Meu celular fica boa parte da noite e do dia carregando, não porque a bateria é ruim, mas porque ele precisa de um lugar para ele. E mesmo quando preciso utilizar, vou até onde ele está, utilizo para o que eu preciso e devolvo para o mesmo lugar.
- Celular proibido quando sentar no sofá ou ao deitar na cama.
- Consequentemente, nunca levar o celular para o quarto na hora de dormir.
- Ignore o celular por boa parte da manhã. Se for algo realmente urgente, alguém vai te ligar.
- Proibido usar no banheiro também - até falei com um amigo sobre deixar sempre um livro lá caso não queira ler rótulos.
- Torne o celular em uma batatinha quente. Toda semana gosto de checar quão mais meu tempo de tela está abaixando e quais são os piores dias.
- Almoce e jante com você mesmo e não com algum reels aleatório.
- Crie mais. Consuma menos!
Sites & aplicações
Eu gostava do Instagram quando começou. Também tive meus dias favoritos falando besteiras no Twitter, depois registrando filmes no Letterboxd e no TV Time, que também permitia acompanhar séries. Para livros, usava dois: o Skoob e o Goodreads. Para inspiração, o Pinterest. Isso sem falar dos apps de diário, lembrete de água, academia, hábitos... Literalmente um app para registrar qualquer coisinha — meus registros performáticos em aplicações para mostrar para outras pessoas.
Minha birra começou quando o Skoob passou a dar muitos problemas: ficava fora do ar, deslogava da minha conta etc. Migrei para o Goodreads, porém acho o site feio. Tentei usar o minimalista Literal, mas já estava de saco cheio e com preguiça de registrar todos os livros pela terceira vez. Exportei toda a combinação que tinha do Skoob + Goodreads + Literal em um CSV e importei tudo em uma base de dados no Notion.
Acabei fazendo o mesmo com os filmes.
Não acho que a minha solução no Notion seja a mais prática, mas o fato de reduzir tudo a uma única aplicação tira um certo peso de ficar navegando entre vários aplicativos, quando, para mim, são coisas que poderiam estar todas em apenas uma aplicação. Ultimamente, penso na possibilidade de trazer todos esses “logs” para este site, como já faço com a minha página de leituras. Criar um hub com todos os meus achados pela vida e, bem, ninguém vai poder tirar isso do ar de um dia para o outro.
Eu já amei apps de produtividade. Hoje, tenho um pouco de ranço, porque prometem tanto que não consigo mais entender o propósito: pagar por serviços que conseguimos fazer totalmente sem aplicações, com a ajudinha de uma agenda de dez reais.
Tenho pensado em deletar algumas das minhas contas na internet (começando pelo X), fazer download dos dados e tentar incorporar tudo eventualmente neste site (ou não). Porque uma das coisas que percebi é que ficar pulando de uma aplicação para outra é apenas um desperdício de tempo e uma fragmentação desnecessária das coisas.
Acho que é por isso que acabo gostando muito das minhas postagens semanais — meu registro de acontecimentos, mas não só: também o lugar onde conto para mim mesmo as coisas legais que estou lendo, ouvindo e assistindo — sem a necessidade de acessar várias aplicações para mim e para outras pessoas saberem o que estou consumindo.
Acaba que essas redes criam a “coisa da performance”, e os livros já não são mais histórias para se divertir; os filmes não são mais momentos de alívio no dia. São para mostrar que se é cult; são quantidades, volume. E é muito triste que acabemos não dando tempo para as coisas nos tocarem com calma. Estamos logo querendo o próximo para mostrar não sei para quem.
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