A Vegetariana
Han Kang
Editora Todavia
176 páginas
Eu tive um sonho”, diz Yeong-hye, e desse sonho de sangue e escuros bosques nasce uma recusa radical: deixar de comer, cozinhar e servir carne. É o primeiro estágio de um desapego em três atos, um caminho muito particular de transcendência destrutiva que parece infectar todos à sua volta. A VEGETARIANA tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Uma história sobre rebelião, tabu, violência e erotismo escrita com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas. A tradução, diretamente do coreano, restitui o estranhamento do original.
A história é divida em três atos, cada um com a perspectiva de um personagem: o primeiro é sob o ponto de vista do marido em relação a decisão de Yeong-hye em parar de comer carne e reação da sua família; o segundo foca no cunhado que desenvolve um desejo e persevidade pelo corpo da cunhada; e o terceiro é o desdobrando dos dois primeiros atos, sob o ponto de vista da irmã, In-hye. Nos três atos observamos o expectativas do comportamento de Yeong-hye, as frustações e o ego de dos personagens.
Fiquei sem palavras. Eu já tinha ouvido falar que estava na moda ser vegetariano. Com o objetivo de ter uma vida mais longa, de mudar o metabolismo e se livrar das alergias. Os monges budistas em retiro também são vegetarianos, mas eles têm um propósito maior, o de não causar danos a seres vivos. Mas de onde vinha aquela postura extravagante da minha mulher? Ela não era mais adolescente, não precisava perder peso nem tinha que se curar de alguma doença, e mesmo assim tinha resolvido mudar de hábitos alimentares depois de um pesadelo. Nem estava possuída por um demônio! Como podia ser tão teimosa e ignorar completamente a opinião de seu marido?
Sob essas diferentes perspectivas e ideais de outros personagens sobre a protagonista, conseguimos perceber a "transição" de Yeong-hye para um animal encurralado, depois para um monge em complitude e depois a busca para se assemelhar a uma árvore/planta e enfim transcender de toda essa dor e expectativas dos outros em seus ombros.
Dava a impressão de se contentar com observar tudo o que lhe acontecia, como uma espectadora, apenas. Não: quem sabe em seu interior coisas terríveis e inimagináveis estivessem acontecendo, e gerenciar tudo aquilo, mais as questões cotidianas, fosse desgastante demais para ela. Talvez por isso não tivesse energia suficiente para demonstrar interesse ou para reagir às coisas ao seu redor.
Se prepare para uma leitura violenta contra o feminino, o desejo e a independência. É sobre uma cultura que se solidifica em misoginia, patriarcado e hierarquia; no silenciamento das mulheres. É um livro que faz questionar para em que lugar estamos indo como sociedade.
Depois de rir por alguns minutos, pensava que a vida era estranha. As pessoas comiam, bebiam, tomavam banho e seguiam vivendo mesmo depois de passar por acontecimentos terríveis.
A escolha do título A Vegetariana é bastante curiosa, porque em nenhum momento Yeong-hye se opõe dizendo que é vegetariana, só que deixará de comer carne, essa subjetividade vem a partir de outras pessoas do seu ciclo familiar; uma alusão ao próprios desejos e vontades negados da protagonista, a qual ninguém parece ser interesse em ouvi-la ou entende-la sem desvecilhar das próprias visões de mundo e serem empáticas com o outro.
É por causa da carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui. Tenho certeza. Sangue e carne foram digeridos e se espalham por todos os cantos do meu corpo; os resíduos foram colocados para fora, mas as vidas insistem em obstruir o plexo solar.
Para mim, o livro segue para duas vertentes: a de que Yeong-hye desistiu da vida e por isso deixa de comer carne, que em muitas culturas representa a vida, a abundância e eventualmente deixa de comer qualquer coisa. E no outro lado é que, talvez ela tenha se liberdado de todas as amarras que a prendia, decidindo agora o que fazer com a sua vida independente das consequências ou achismos das outras pessoas.
O máximo que ia conseguir era machucar a si mesma. Seu corpo é a única coisa à qual você pode fazer mal. É a única coisa com a qual você pode fazer o que quiser. Mas nem isso te deixam fazer.
Interessante. Ainda não li esse livro mas sei que em algum momento lerei.
ResponderExcluirEsse detalhe que ela nunca diz que é vegetariana eu não tinha notado. Até isso ela não teve decisão... que livro pesado. Eu não gostei da leitura, mas fiquei feliz por ter terminado de ler. Não faz muito sentido, mas não sei se um sentimento faz 😅
ResponderExcluirAbração
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