Conchas ao mar
Das idas às praias,
Da primeira vez que comi ostra,
Guardei conchas no bolso do casaco, nas malas de viagem,
Fragmentos marinhos separados por milhares de quilômetros, finalmente juntos dentro de uma caixa,
De recordação, das pequenas conquistas ou do passar dos verões.
Do passar do tempo, com o passar do tempo, dos mapas que se criam no corpo,
Das estradas que se formam nas mãos, dos rios que crescem debaixo dos olhos,
Uma caixa de histórias, de miniaturas e de grandezas.
A sua grandeza, que não cabia em caixas.
Não sei se alguma vez já ouviu falar sobre caranguejos-eremitas antes,
Caranguejos-eremitas costumam fazer suas casas em conchas abandonadas,
Teu abraço tinha sensação de concha, um escuto contra turbulências,
Tenho uma coleção de abraços teus, de momentos em que eu abri os olhos para desaguar,
De dias que sentia um vazio enorme e, dentro dos teus braços, o meu próprio eco fazia um som interessante.
A vida é um pequeno serviço de pedir emprestado e devolver.
A gente nasce, usa o tempo, a natureza, a água, se ama e ama os próximos.
quatro de agosto
e eu vou concordar,
lembro que você dizer qualquer besteira
acreditava que você estava sempre certo,
era capaz de acreditar em qualquer mentira que saísse da sua boca,
não havia veracidade suficiente que provasse o erro,
escolhia acreditar
(não que me restasse outra opção)
sabe, é verdade. eu não sei como dizer adeus
me conta de novo sobre como conseguiu aquela cicatriz no joelho
fala de novo daquela história boba de quando arrancou o primeiro dente
me conta daquelas aventuras com teus amigos no bosque,
Deckerinnerung
Notas sobre amor
da noite pro dia, de tantos dias
da rotina que se adapta,
dos abraços que se acabam em beijos e se prolongam em conchinhas,
em lágrimas, gotas de suor,
na luta e na conversa
o amor acontece.
o amor acontece e não é fácil,
porque eu sempre escutei a mesma história de amar si primeiro,
e,
sendo resultante de tanta introspecção e conversas dentro da (própria) cabeça,
o amor se mostrou outra coisa,
mostrou como cuidado, como conversa,
como barulho.
amar é barulho, fagulha, incêndio
é tudo aquilo que te faz sair do conforto,
levantar a poeira da casa,
amar também é fazer o caminho de volta, é novas plantas na casa, um conjunto novo de sandálias, o dobro de shampoo.
amar é o dobro,
e eu não aprenderia tanto sobre amor se não fosse pelas tentativas de mais uma vez abrir mão da praticidade,
é a dobra das toalhas que ficaram por dias a secar,
da preguiça nos dias de domingo com rabanada de pão dormido,
amar é lambidas, paciência,
é sair pelas portas para mais um passeio, é andar no parque e se afogar na escuridão.
é mudança de planos, novos planos
é frio na barriga.
Reminiscente
Voltei correndo para casa porque depois de um tempo percebi que estava te esquecendo, coisa que o próprio tempo se encarrega de fazer; se acostumar. Peguei aquele restinho de perfume que você esqueceu em casa e espirrei um pouco no sofá e do lado da cama que você costumava ficar, que sorte a minha, a quantidade exata.
Fico pensando o quão patético é manter estas lembranças, você provavelmente já deve estar em outros braços. E eu? Eu volto correndo para casa, para o silêncio, esperando que você o quebre a qualquer instante com aquela risada. Histórias que chegam ao fim, perfumes acabam, piadas perdem a graça. As horas passam e o esquecimento dá abertura para novos dias, novas memórias, as fotos ainda ficam em algum álbum virtual e também algumas memórias, como agora em que o amanhã não chega e ainda (ainda) posso dormir mais uma vez acompanhado de você - ou pelo menos do que restou de você.
Telefone sem fio
Maybe
Eu deveria
passar menos dias dentro de casa
Superpoderes
a ideia de superpoderes sempre me pareceu um belo jeito de
salvar o mundo
salvar o dia
salvar alguém
assim, fácil desse jeito
a vida podia ser mais cinema,
podia ser mais fácil,
podia ser como nas histórias de livros,
a vida podia ser mais fácil,
podiam existir menos dias escuros,
menos correria e mais cafés
queria ter superpoderes
te colocar no varal pendurado no sol por dias,
para secar os dias ruins, os choros,
a desvontade
queria poder segurar o peso do mundo,
das escolhas, das desilusões amorosas
queria ter o poder de te encolher, colocar em um potinho com sete guardas na frente;
decapitar qualquer um que ousasse arriscar um jogo sujo
queria abraçar seu coração,
sentir as suas dores,
queria que os teus dias fossem só como nos filmes de finais felizes,
de fotos bonitas, de músicas poéticas,
de conversas profundas
queria ter o mesmo superpoder que você tem,
eu ainda me lembro dos dias em que ideias ficavam contidas dentro da cabeça, você vinha cirurgicamente com cuidado tirar o melhor de mim.
o seu superpoder sempre foi enxergar o melhor das pessoas, trazer luz e esperança e amor e cálculos malucos, buracos negros, gregory, arte, maré, açúcar, rabanada, bicicleta.
você sempre soube inundar as pessoas das coisas mais lindas - de vida, de vontade, de puxões de orelha.
queria ter qualquer poder que te fizesse passar a velocidade da luz por esses dias,
queria que não houvesse ter que ter paciência,
nem j, nem feridas, nem solidão, nem incertezas.
queria ter superpoderes e mandar em um tufão para longe qualquer coisinha inconveniente, por mais minúscula que seja, embora.
queria ser eu um herói como você,
que me salvou e me salva e me acessa
e me torna um amigo.
quero estar aqui pra quando os dias não estiverem bons,
(não tenho poderes nenhum,
mas tenho bons abraços e um bom ouvido.)
Sobras
Tamanho 42
nunca imaginei que cairia nesse imaginário,
que a estranheza pudesse se perpetuar entre nós.
logo eu, que conhecia tuas manias mais bobas,
já havia decorado a sequência em que costumas te vestir: cuecas, meias, calça, blusa e um perfume azedo,
e que sua sobremesa favorita era aquele tiramisù do café na esquina.
nem sei se era o seu favorito, mas era perto e sempre passávamos lá na hora de voltar pra casa.
estranho essas coisas se tornarem estranhas.
agora me diz: o que vou fazer com todos esses números — 03/05/2021, tamanho 42, o seu passaporte, o seu CPF, 1995, dois de janeiro? não sei se tenho mais capacidade para decorar números. até hoje não decorei o número do hospital — e sabemos que, pelas inconveniências da vida, faria muito mais sentido (e seria mais oportuno) decorar ao menos o número da emergência.
mas estranho é fingir que não aconteceu.
todas as fotos que ficaram arquivadas no rolo da câmera vão sempre causar esse burburinho no estômago, como quem atiça fogo ao ninho de vespas.
apagar as suas fotos de todas as redes sociais, as declarações de amor que não existem mais, qualquer espécie de bit que permita te encontrar, agora irrecuperável.
sabe, acho que o tiramisù nem é tão gostoso assim.
(Rascunhos)
porque talvez seja um jeito de me remontar
e lembrar das pequenitudes dos dias
já fazem trinta anos que as coisas acontecem
e ainda não me lembro onde que foi parar aquela caixinha de giz da quinta série
escrevo para que o tempo não possa pagar,
os corações quebrados
as tardes dando vida a noite
os pés de manga
o pique-esconde
escrevo para lembrar sobre o hoje,
e esquecemos como as pessoas sorriem,
e o sabor dos cafés,
e o cheiro das árvores
e as cores e os pedaços e os enfeites e as quinquilharias
Escrevo quase como arma contra o esquecimento,

Encontro
Não tem mais nada para mim aqui,
O inverno está prestes a chegar
E não preciso de agora também o tempo me mostrando o quanto os dias ficaram tristes
Eu quero sair dessa cidade
Porque qualquer possibilidade de me esbarrar novamente com você,
De que o seu olhar possa me atravessar
(E eu sei que pode)
Eu quero sair dessa cidade
Porque não podemos existir no mesmo lugar
E a desculpa de novas encruzilhadas, um novo semáforo e
Novos pedestres façam bem aos sentidos.
Eu quero fugir dessa cidade
Porque me lembra tanto de você e parece que existe tão pouco de mim aqui
Preciso achar espaço para também ser eu
Se
eu queria te chamar qualquer dia desses para vir aqui em casa,
deixar você encarando os meus livros enquanto eu passo um cafésó para depois voltar com duas canecas cheias, uma para você e outra para mim
e te contar as minhas histórias favoritas, os livros que me deixaram desconfortáveis
e algumas breves recomendações
e quando a gente se der conta, os cafés já estão meio frios, mas a conversa segue acalorada, você me fala dos seus filmes de criança e porque viagem no tempo é tão legal, “imagine, como seria tudo isso se pudermos voltar e corrigir nossos erros?”
O silêncio cairia sobre teus ombros e também sobre os meus, porque esses são pensamentos que pela falta de intimidade ainda não vamos compartilhar, mas damos cinco minutos para ir às principais escolhas que fizemos, quem machucamos, quem amamos e por que amamos.
“será que se corrigirmos nossos erros estaríamos aqui? estaríamos mais felizes ou mais tristes?”
ainda assim gostava de te apresentar algumas minúcias, coisas escondidas, uma técnica que eu descobri para descascar cebolas, uma receita nova de chocolate quente, meu lado favorito da cama. ainda assim, mesmo sabendo que te apresentar o meu mundo faria com que toda essa mágica acabasse, essa mágica que fica no “e se”, algo que não ousamos ultrapassar.
cafés frios também pode ser bons quando acompanhado de boas histórias e algumas renúncias.
Ventania
com veemência que eu devia fechar mais os olhos,
abrir mais a boca,
para sentir o gosto do vento,
o gosto da água que cai do céu,
logo estas coisas que dizem que nunca tem sabor algum,
um dia desses chovia e ventava, como é suposto em todos os finais de ano
a água continua com gosto de água,
o vento continua com gosto de vento,
e os olhos continuam fechados,
porque, analisando com os cabelos e roupas encharcadas,
fazia tempo que eu não sentia sede,
fazia tempo que o vento não fazia cócegas,
fazia tempo que eu não me surpreendia com simplicidade.
Água salgada

em um momento era assim, euforia de ver tanta água azul, que pensei que água era só água que eu estava acostumado, mas sentir o sabor do sal, me fez entrar numa realidade e felicidade de: novos sabores, novas experiências, novas aventuras.

Espaço em branco

ainda que decorasse todas as palavras, não seria o suficiente para o nervoso e o súbito espaço “em branco” que toma conta do momento, ainda que decorasse todas as palavras, essas não estariam aqui, de prontidão, para agradecer o hoje, o sentimento, não mais alheio, que se expande, de dentro, pra fora, na mesma medida que, de fora, pra dentro.
Uma pessoa amada

como eu amo amar quem tu és; como qualquer outra mãe, que em outrora, não pude escolher, chegaste e me amaste nos detalhes mais minuciosos, nos pequenos erros de criança; mãe, tu és meu molde de bondade no mundo, a ânsia por coisas novas, por experiências. és o meu mais belo espelho, porque só tu és vontade, loucura, travessura e na mesma intensidade és ingenuidade, cuidado e amor. amor esse que perdurou por dias, meses e anos afinco até os dias de hoje, que já não sou mais criança que fica dentro dos seus braços ou na defesa de uma conchinha. ainda que tu insistas que filho nunca cresça, que nunca será tarde demais para receber carinho ou uma conchinha desajeitada como só tu sabes fazer.
como eu amo amar quem tu és, porque és, sem sombra de dúvidas, o meu lado mais bom no mundo.
Os dias de saudade

haveria de reclamar sobre as noites que se tornaram distintas porque são as noites que desejei que tivesse por trás, como a minha mãe me abraçava quando era criança, também chamado de conchinha, houve saudade porque essa mesma posição sempre me trouxe conforto, cuidado e carinho. haveria saudade porque dona patrícia nem sempre gosta das minhas roupas porque não condiz com o trabalho ardoroso, ela sabe, eu sei, nos sabemos que haverá saudade disso algum dia. e nesses mesmos dias em que dona patrícia reclama das roupas encontro lucas, que se intensificou nos meus dias e nas manhãs e nas noites, que virou receio de estar e de sumir a qualquer momento, que tem o mesmo nome do meu irmão mais novo, que me dá saudade por ter 7 anos de idade e apesar de tão criança, é muito adulto. gosto dessa semelhança de nomes, são saudades distintas, mas amores imensos. e nós mesmos dias que vejo lucas e mato saudade, outras haverão de se intensificar como quando estou dentro do ônibus e há sono de manhã e depois do trabalho, no caminho a mistura de cochilo, leituras e pequenos sustos com medo de ter passado a parada, porque nesses dias que não passamos da parada, pegamos o ônibus errado, banhamos de sol e encontramos um novo caminho entre os prédios que polpam tempo e ao mesmo tempo permite pensar na vida logo de manhã. e nessas mesmas manhãs a gente descobre que será promovido, porque merece e essa é a grande notícia do dia e talvez da semana, talvez do mês. e a partir de então começa a pensar em crescer e sair de casa, para sentir saudade dos pais, das contas pagas e cama arrumada, para provar o pedaço que é ser adulto, ter responsabilidades, pagar iptu, mas chamar de nosso. meu. minha. sentir orgulho e deixar os outros orgulhosos.
— ilustração por linhasinhas
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