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Meio texto


Houve um término brusco, porque sabemos que términos sempre vem acompanhados de lágrimas e de brinde, coração partido.

Carlos é o tipo de cara que guardas as coisas dentro, protegido pela alma. É um menino. Doce e verde, por causa dos olhos da mesma cor que representa vitalidade, esperança e liberdade. Liberdade essa dele que prefere estar dentro dos braços de alguém, beijo no pescoço (próximo a orelha) e conchinha nos dias frios. Como dito, Carlos é dos caras que sabem guardar, dentro das sete chaves ele guarda o término com Marcelo.

Antes de continuar, vou falar sobre Marcelo, o típico garoto de óculos grandes e olheiras provocadas pelas mesmas lentes que usa para enxergar. Marcelo não faz esforço, sempre foi longínquo das palavras, dos toques, dos aconchegos e, bem, das coisas que Carlos gosta.

E é muito estranho contar esta história, porque eles teriam tudo para não dar certo, afinal, são totalmente diferentes. Mas agora me lembrei que existe aquela teoria de que os opostos se atraem, pode ser.

O primeiro encontro foi quase sem querer, Carlos lembrou, chegando a estação de ônibus nº 07 da Rodoviária do Plano Piloto, que havia esquecido a carteira com o dinheiro da passagem em cima da mesa de trabalho, se não tivesse voltado para buscar a carteira com certeza não teria passado no shopping próximo do trabalho para tomar um sorvete, já havia perdido o ônibus de qualquer forma: um doce sempre ajuda a melhorar algumas situações. Se não tivesse voltado para buscar a carteira não teria tomado sorvete, também não teria derramado o mesmo sorvete na blusa branca escocesa importada de Marcelo.

O efeito foi negativo, porque era um sorvete vermelho com preto, no caso, cereja e chocolate. Havia uma não possibilidade da blusa ser salva, mesmo usando aquele pó branco milagroso das propagandas de tv. Se não fosse pelo sorriso de Marcelo, Carlos teria caído aos prantos ali mesmo.

A sorte é que Marcelo odiava aquela blusa que sua tia-avó trouxe da última viagem da Escócia. 

Distrações



São raras as vezes que Olívia tira os olhos do livro quando está no metrô. Chega a ser um pouco metódico, porque ela senta sempre no mesmo lugar, no mesmo vagão do metrô do lado contrário ao sol. Nem sempre foi assim, porque nos dois primeiros dias descobriu qual era o lado que o sol não batia.

As viagens da Olívia até a faculdade são sempre iguais, letras miúdas numa folha meio amarelada, acompanhada de música clássica nos ouvidos. Numa dessas raridades de desviar os olhos das páginas acaba sendo avistado um menino de cabelos e olhos muito pretos, lendo um outro livro — algo que já é de praxe no metrô: pessoas lendo livros, porque não há rede móvel.

Apesar da deformação numa parte do rosto do menino, Olívia se sentiu atraída de alguma forma, talvez pela idade próxima, da estatura elegante, do modo como ele mexia a boca quando parecia estar concentrado. Talvez esse fosse o meninos dos sonhos de Olívia, não extremamente bonito, mas atraente.

Apesar de estar no mesmo lugar todos os dias, criou a coragem de se levantar e sentar ao lado do rapaz — quase como interpretando as personagens femininas e corajosas dos livros que costumara ler —, na verdade não é muito difícil, apenas precisa captar os 10 primeiros segundos da atenção sem tremer a voz ou gaguejar.

Nós 10 primeiros segundos ela pensou, não teria assunto, e o menino, agora ao seu lado, não se moveu ou percebeu que ela trocou de lugar. Nesses 10 eternos segundos ela se lembrou que havia lido aquele livro muito antes de fazer faculdade, afinal era uma leitura obrigatória para prestação do vestibular. Então ela perguntou: "leitura obrigatória para o vestibular?", muito criativa.

O menino de meio rosto feio respondeu com um sorriso acompanhado de um não, que ele estava lendo só por diversão, adorará livros com pegadas mais clássicas e com críticos social. A conversa se estendeu falando sobre todos os problemas brasileiros, depois mundiais, mudando para as perspectivas que cada um dia sobre a vida. E apesar de estar no lado do sol, porque o menino não sabia escolher lugares, ela se sentiu feliz. Uma viagem diferente da acostumada. Mas logo a conversa findaria, porque chegaram a Central, estação final do metrô e se espalhariam na pequena Brasília em busca dos seus objetivos diários.

Ela descobriu que o rosto havia sido chamuscado quando ele ainda era criança e agora parecia até ser charmoso, prova de uma infância aventureira. E nossa, como ela queria viver aventuras dos livros que lera (sem consequências graves, é claro). O assunto cessou por um tempo, então ela imaginou como seria sair para tomar um café no meio da cidade, após a aula de geografia avançada, onde estaria exausta e poderia relaxar tomando um bom café e uma conversa tão boa quanto está.

O silêncio perdurou até os últimos minutos minutos, chegando a última estação, Pedro, que sim tinha um nome, pediu o número do telefone e combinaram de algum dia tomar um café e ler as poesias que ambos escreviam.

Esse dia nunca aconteceu, nem um segundo encontro no metrô. Mas Olívia sabia que valerá a pena não terminar o capítulo daquele romance naquele dia, porque descobriu que distrações também pode ser positivas.

Blusinha de lã

 Ela bem que se lembra nesses minutos antes que ele adorava o cabelo longo até a cintura, talvez essa fosse a última parte que restou nela que se referisse a ele.

O término não foi fácil, porque nunca é. Ela que sempre acreditou em princípes descobriu sentindo na pele pela segunda vez que raramente acontece, que as pessoas mentem e que soube que seu coração seria pedaçado novamente.

Ninguém se prepara para esses momentos, ainda mais quando você é trocado por outra pessoa. São tantas perguntas que ela queria fazer, mas a mistura de raiva e dor, não permitiam ser feitas, sempre foi aberta a tudo, menos traição.

As duas primeiras semana foi inconsolável, não sentiu vontade de sair da cama, eram quatro anos de relacionamento jogados na lata de lixo. E pensando nisso, decidiu ouvindo Adele, que seria momento de se livrar de algumas coisas e colocar na mesma lata de lixo os resquícios daqueles anos dourados, coisas que ela não tivera coragem porque doía lembrar dos momentos bons e não tê-los no futuro que sempre sonhara.

Talvez fosse melhor mudar a música para essa atitude que teria que fazer a seguir. Mas não, ela retirou cada fotografia pregada na parede que formava um grande coração e chorou. Ali sozinha ela percebia que era o fim, então continuou indo para escrivaninha e o longo espelho que ficava ali próximo, retirando mais fotografias e recados de amor escritos em post-its. A sorte era que a lata de lixo era grande e coube todas as pequenas coisas, aquilo decretou o fim (ou pelo menos o início do fim).

Quatro anos de relacionamento gerou muitos presentes e muito desses estavam estocados dentro de gavetas e cabides no guarda-roupa. Aquela, de longe, seria uma noite que terminaria cedo: abrir a primeira gaveta trouxe a blusa de lã que ela ganhou de presente na primeira viagem dos dois, comprada num brechó em Curitiba que ela seguia a séculos no Instagram. O cheiro dele permanecia na blusa, apesar de muito tempo não usada. E então ela abraçou, sentiu saudade e sentiu que precisava de uma sacola maior para doar todas aquelas coisas.

Tinha coisas que durante o namoro ela se recusava jogar fora, porque eram presentes, mas agora ela via a oportunidade perfeita para abrir espaço no guarda-roupa e para as novas coisas que poderiam chegar. Lá se foram caixas enfeitadas, capinhas de celular, a aliança, os pequeninos colares, a maquiagem que ela nunca conseguiu usar porque era alérgica.

Se sentiu aliviada ao ver dois sacos grandes no canto do quarto, aquele poderia ser o fim do fim. Mas não era, no esforço de levar as coisas para o carro e deixar no hospital mais próximo, ela desceu as escadas e parou no hall — um rosto inchado, desconhecido. Aquela aparência não combinava mais com a nova que se tornou.

Na manhã daquele dia, ela bem que se lembra nos minutos antes de cortar o grande cabelo que ele adorava até a cintura. Agora com um corte sofisticado, estava pronta para uma nova fase, apesar de todas as coisas materiais que nos livramos, também precisamos permitir que as coisas em nós também possam mudar.

Chegando em casa, se lembrou que esqueceu de retirar o saco de lixo, então o fez. E depois foi dormir, estaria exausta, porém revigorada.

O Título não importa

3 COMENTÁRIOS

JQ nunca foi um cara de estar junto. Ele nunca teve amigos, aliás, ele teve muitos amigos, ainda tem muitos amigos. Grande parte inventada, imaginária. Diz ele ser o melhor amigo que se pode ter. 

Mas a vida está para lhe pregar peças, um vendaval sentimental está para vir. Ele menos espera, tá chegando, é na livraria, no andar de cima. Um dia normal, como os outros ele e seus "amigos" estão indo atrás de mais um lançamento, porque é sempre assim, leitor assíduo está na livraria no dia de lançamento. 

Parece esquisito, mas está tocando uma das músicas favoritas de JQ, é uma que diz sobre o amor, sobre as pessoas, sobre o sentimento. Ele fica ali parado, pensando, no dia que deu seu primeiro beijo. Aquela música tocou, tocou várias vezes no aparelho velho do seu quarto. JQ era apenas uma criança quanto aconteceu, mas nunca esqueceu seu primeiro e único beijo.
 
///////// @igormedeiroz