Três
Valerie Perrin
Intrínseca
528 páginas
Adrien, Étienne e Nina se conhecem na escola aos dez anos, em 1986, e rapidamente se tornam inseparáveis. Eles passam o dia juntos nadando na piscina, trocando confidências e prometendo que um dia sairão do interior da França e se mudarão para Paris, onde viverão de música.
Os três não podiam ser mais diferentes: Étienne é o rebelde, Adrien, o ingênuo, e Nina, a emotiva. No entanto, a união entre eles é maior do que qualquer diferença. Um não se vê sem o outro. Mas, às vezes, nem mesmo o laço mais forte é capaz de resistir aos percalços da vida. Enquanto a infância vai ficando para trás, a forte conexão entre os três também começa a ceder aos obstáculos que surgem ao longo do caminho.
Trinta anos depois de se conhecerem, Adrien, Étienne e Nina se tornaram estranhos uns para os outros. A amizade que eles juraram que seria eterna não existe mais. Porém, um acontecimento inesperado pode trazer à tona segredos enterrados há muito tempo.
Havia algum tempo que eu ouvia falar no nome da Valerie Perrin; adicionei Três à minha meta de leitura assim que foi lançado. Fiquei feliz quando o livro foi escolhido no clube de leitura, porque assim pude conversar com outras pessoas sobre a leitura.
Tenho tido experiências muito boas com autores franceses: Ernaux, Édouard Louis e, agora, mais uma autora para eu ficar obsessivo, querendo ler toda a bibliografia. Acho que todos esses autores me arrebatam porque escrevem sobre relações e sobre pessoas de uma forma tácita, em que os personagens vão se construindo aos poucos por meio do tempo, de outras histórias (músicas, livros, filmes etc) e das experiências.
Eu adorava as olheiras sob os olhos de Nina. Tinha inveja delas. Aquilo a envelhecia, a fazia parecer mais madura. Eu queria roubar suas marcas de cansaço. Queria roubar tudo dela.
Três conta a história de três amigos e de como a vida, por mais planejada que seja, nunca segue o caminho que sonhamos. É uma história de perdas: da inocência, do luto, da infância, ao ter que crescer mais rápido e das lembranças boas que se materializam e se perdem no tempo; mas é também uma história de amizade, amor, carinho e relações.
Ao aprofundar os personagens, acho que Valerie mostra muito essa questão humana que leva as pessoas a se relacionarem ou deixarem de se relacionar. Até mesmo os personagens mais secundários ganham um pequeno espaço para explicar o próprio background e o que os levou a chegar ali, qual é o seu papel na história.
É louco pensar que podemos amar alguém, seu cheiro, seu corpo, sua saliva, sua voz e, de repente, detestar tudo isso.
Sem dúvida, o principal ponto é desvendar a relação desses três melhores amigos de infância que, quando adultos, deixaram de se falar. Apesar de ser um livro com foco em amizade, também explora outros tipos de relacionamentos, como os amorosos. Gosto de olhar por esse ponto porque quase todos os relacionamentos desse gênero são descritos como obsessivos; isso molda muito a trajetória da história, mas também me faz pensar por que a autora colocou o amor romântico nesse lugar mais obsessivo, enquanto a amizade, para mim, parecia algo mais natural.
Terminei a leitura com a sensação de sermos moldados pelas nossas relações, que são resquícios de outras relações, que também são resquícios de outras gerações: uma série de traumas, dores, medos e preconceitos que reverberam na vida das pessoas durante anos. Penso em como também somos as relações que nossos pais tiveram com os nossos avós, mas também como os amigos se relacionaram com outros amigos; somos reflexos de muitas outras experiências e, claro, da nossa própria experiência com essas pessoas.
Nós nos tornamos aquilo que os outros fazem de nós e aquilo que aceitamos.
Acho que uma das coisas de que eu mais gostei neste livro — algo que o torna mais longo — é que a autora escreve com muitos detalhes, para transmitir sensações e lembranças, criando, de fato, personagens e histórias reais. É uma maneira que, quando escrevo, também procuro seguir. Um bom exemplo disso é o trecho que a Aline destacou e eu “roubei”:
O verão pertence a todas as lembranças. É atemporal. O seu cheiro é o mais forte. É aquele que fica nas roupas, aquele que buscamos a vida inteira. O de frutas muito doces, de brisa do mar, de rosquinha, de café, de protetor solar, do pó de arroz das avós. O verão pertence a todas as idades. Não tem infância nem adolescência. O verão é um anjo.É um livro grande, denso, mas que estou muito feliz de ter lido. É lindo, poético. É sobre a vida.
Nossa Igor, você descreveu muito do que eu senti e nao consegui expressar no meu post. Essa coisa de como relações que muitas vezes não tem nada a ver com a gente acabam nos atravessando e moldando quem somos... é muito isso!
ResponderExcluirEu gostei muito de como os personagens foram construídos. Eles tem suas características bem definidas e a gente não fica com a sensação de que um personagem está ali só por estar...
Eu amei esse livro e amei a sua resenha. Me senti lisonjeada de você ter gostado de um trecho que eu destaquei e ter me citado aqui!
Um beijo!
Eu acho que os franceses têm esse "je ne sais quoi" que transforma o jeito deles de contar histórias em uma coisa que, tendo mente aberta, a gente muito provavelmente vai se envolver demais... Nos filmes é assim e tô descobrindo que nos livros também...
ResponderExcluirÉ doido como um título pode fazer a gente entender ou não a história, né? A princípio eu não queria ler esse livro justamente por causa disso, mas entrar nela foi muito inebriante! As relações interpessoais que a Valerie estabelece são muito cruas, de um jeito positivo, é difícil conseguir parar de acompanhar quando a gente pega no embalo. Cara, eu queria abraçar a Nina o tempo todo, é isto!