Se eu tivesse chorado

 Se não tivesse sido podado ainda aos cinco anos de idade, de que homens não podem chorar ou não devem ser emotivos, onde eu estaria? Onde teriam chegado, que novos sentimentos e caminhos teriam sido explorados?

Sinto que aprendi, como quase toda criança que cresce em meio a adultos, a trabalhar muito essa performance de saber o que está fazendo, ter que crescer antes do tempo. Engolir o choro, homem não chora. Esse fuzuê, barulho, joelho ralado eram de algum modo incômodos. 

Sinto que minha delicadeza, sentimentalismo, feminilidade foram engolidos e nunca mais consegui encontrar, como quem engole a chave de um diário para que ninguém consiga abrir e ler as verdades que estão ali. Espero um dia saber se toda essa fachada de não sentir o mundo vai passar, que eu volte com os olhos marejados para as minhas conquistas e para as conquistas dos meus amigos, que eu chore de saudade, de coração partido, de felicidade, de um filme bobo na sessão da tarde.

Claro, agora que sou adulto, pago as minhas contas e ainda sobre dinheiro; você me pergunta e por que não faz terapia para resolver isso? E eu faço. Faço terapia, há anos, para tentar sentir o mundo, sentir de verdade, me comover, fazer parte. Para conseguir ter uma reação aos meus amigos quando eles me surpreendem com um presente que eu adorei, quando consigo uma promoção no trabalho, etc.

E não chorar foi para outros campos, esconder qualquer sentimento se tornou fácil e, eu, perito. Achava que estava ganhando nesse jogo da vida, dizendo para mim mesmo que pelo menos não saía machucado. Só quando percebi que não tinha mais como me machucar quando eu já não me permitia mais sentir, não me permitia ser machucado e levar uma vida assim, sem deixar ser trespassado, é como morrer em vida. E teve muito tempo em que sentia que apenas flutuava entre os dias. 

Conto aos meus amigos que é difícil chorar, no começo parecia algo a se orgulhar, hoje só parece algo meio triste, como um ser humano não pode ser uma coisa tão simples, que é a primeira coisa que se faz quando se nasce: chorar para expandir os pulmões com ar. Chorar é expandir e também é esse caminho de volta para si, para as origens. 

Tento não culpar os meus pais, porque possivelmente foram os pais deles que disseram que eles não podiam chorar, talvez sem o choro e o melodrama a gente tenha a sensação de saber o que está fazendo, talvez, só talvez, eles achavam que estavam preparando um menino para o mundo, menino não, um homem. Forte. Impenetrável. 

Form for the Contact Page