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os dias de cão acabaram (na verdade, estão só começando)

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Essa postagem começou a ser escrita em 14 de julho de 20211, sendo a minha postagem mais antiga nos rascunhos. Não lembro quais eram os meus planos para ela; tinha apenas dois textos linkados2 que não me dizem mais alguma coisa. Só me resta reler e escrever algo sobre. 


Uma ode à experiência. 


Uma pesquisa experimental mostrou que as pessoas curtem mais as atividades quando elas não ficam tirando fotos. Sem a necessidade de documentar o momento perfeito, acabam aproveitando a viagem e não se distraem buscando idealizar o momento perfeito. Em tradução livre, "tirar um milhão de fotos de viagem para lembrar em algum futuro é um grande jeito de não aproveitar o presente".

Então, quando viajamos para lugares ou até mesmo estamos curtindo nossa preguicinha em casa, precisamos mostrar para as pessoas (que muitas vezes nem conhecemos) que estamos vivendo. 

Essa performance da vida, milhares de pessoas te dizendo como viver a vida, quando acredito, eu nem eles mesmos acreditam em todas as baboseiras que eles falam, dizem, escrevem em caixa minúscula textos de autoajuda, não para si, mas para viralizar em algum vídeo curto de 15 segundos. 

Journal of Consumer Research publicou em 2018 que tirar fotos com a intenção de postar nas redes sociais faz com que as pessoas deixem de experienciar momentos, porque isso aumenta "um receio do que as outras pessoas vão pensar". Isso, somando ao começo deste texto, quer dizer que além de perder o prazer de viver o presente, a gente preenche esses momentos com preocupações e inseguranças (mais uma vez, de estranhos).

O fato é que um vídeo, por mais "handmaid" que ele seja, por mais natural que ele pareça. Ele nunca será real. Uma postagem não é natural, não no mundo de hoje. Há uma intenção e um motivo, nem que seja mesmo só para alimentar o ego. Se postar na frente da câmara, deixa de ser apenas sobre a lembrança, mas sobre que está vivendo o melhor dos momentos e talvez até uma autoafirmação de que existimos. Vivemos uma performance de vida, uma performance de experiências até o próximo vídeo. E todos nós acabamos nos enganando nas superficialidades, sem adentrar realmente as experiências, porque queremos só despertar no outro de que: sim, eu existo e muito bem.

Um simulacro de performance.


Quando entramos nesse mundo algorítmico em que postagens com rosto possuem melhor performance em números, passamos então a ter uma promoção de si mesmo; selfies não solicitadas inundam os stories e os feeds, deixamos de ver paisagens bonitinhas, comidinhas e besteirinhas. Agora é apenas uma curadoria de si, nas melhores versões, festas e viagens. Sempre no meio, centralizado, se possível sozinho. Eu nem quero levar esta conversa para os impactos negativos que tem sobre as questões que isso leva para com o nosso próprio corpo; isso é conversa para outra hora. É que agora, deixamos de estar intrinsecamente interessados pelo outro — um comentário ou um like não é interesse. É apenas um comentário e um like.

O meu, medo, é que um dia eu morra sem eu me conhecer. E eu não acho que vai ser fazendo uma trend depois da outra que vou conseguir me entender, não é com uma roupa feita por IA ou uma imagem de mim mais velho. E eu fico imaginando se, um dia, ao demonstrar tanta presença online, sabemos o que estamos fazendo, se realmente nos conhecemos e somos autênticos. 


Happiness hit her, like a train on a track.


A música da Florence, até se encaixa de alguma forma: é sobre abandonar o passado e buscar um futuro mais leve, um futuro mais calmo, mesmo que isso exija abrir mão de antigos apegos. Espero que um dia a gente consiga correr com nossos cavalos para onde a vida seja assim mais leve, sem a correria, o cansaço e a comparação. Que a gente deixe mesmo os dias de cão para trás e consiga experienciar o que ainda resta de vida.


 

1. Mantive o mesmo título original, que é uma referência a música da Florence + The Machine, apenas com adicação da segunda parte entre parênteses.

2. How to Plan the best Vacation for your Happiness (2021) e Como as redes sociais afetam a sua visão de si mesmo (2019).

3. Postei uma selfie e agora há um monte de estranhos curtindo a minha foto.

A linguagem dos jovens

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Teorias de domingos à noite com M.

Após duas taças de um champanhe ótimo (Casal Garcia Fruitzy sabor melão), começou a tocar algumas músicas do que seria um R&B contemporâneo e outras coisas em que uma das cantoras era Chxrry. Que, na minha cabeça, era pronunciada da seguinte forma: cherry, como a cereja; M. me solta que nunca ia fazer essa associação tão rápida, porque, atualmente, os nomes e a linguagem dos jovens parecem tão distantes do que ele estava acostumado. E mudam.

Percebo em alguns memes que o meu irmão mais novo me manda que metade das coisas, talvez por eu estar maioritariamente fora das redes sociais, eu tenho de pesquisar as palavras ou os significados. Acho que a linguagem dos jovens, lembro no meu tempo, era esse lugar de novidades, que criamos trejeitos, dialetos e novos jeitos de se comunicar, isso que causa uma certa independência para com o passado dos nossos pais e tornam as palavras nossas, de fato, nossas.

A linguagem muda, como a forma de se expressar e comunicar também muda, e isso é muito genial como o ser humano criar esses artifícios tão bobos para se diferenciar: os jovens utilizarem apenas letras minúsculas ignorando as regras gramaticais e convencionais, como algo aesthetic. Já estive desse lado e hoje não consigo escrever tudo minúsculo, acho que talvez a minha fase de rebeldia e disrupção tenha passado. Envelheci.

E deixe as crianças encontrarem novas maneiras de se comunicarem entre si, agora precisamos de encontrar maneiras de conversar com eles, um problema que eu tinha quando era adolescente e que meus pais pareciam não entender. Não tinham a mesma linguagem que eu tinha com os meus amigos. 

Uma vez li que quem usa ‘emoji’ já é velho e percebi que, eu e meus amigos, começamos a usar emojis com mais frequência, talvez pela preguiça de escrever ou de procurar um sticker (as melhores formas de se expressar). Talvez de fato seja essa coisa de não termos tanta paciência de escrever e reduzir a um emoji, o "ODKASODKAP" dando lugar apenas a um😃. Fico a imaginar o quanto de coisas que se perdem entre uma frase toda escrita em minúscula e um emoji, mas faz parte. Humanos nunca conseguiram se comunicar 100%. 

 
///////// @igormedeiroz